21/04/2026

Sirât

Antes de tudo, um aviso claro: o texto abaixo contém spoilers importantes do filme Sirât. É um relato de quem já assistiu, mas também uma tentativa de registrar o que de fato acontece, para não depender só da memória.

O filme acompanha Luis e seu filho Esteban atravessando o deserto em busca de Marina, filha de Luis, que desapareceu depois de ir para uma rave ilegal no Marrocos. Eles chegam à primeira festa e começam a mostrar a foto dela no meio da multidão. Ninguém parece realmente ver. As pessoas estão em outro estado. A música alta, as luzes, as drogas. Aqueles paredões de som no meio do nada parecem mais um ritual do que uma festa. Enquanto todos ali querem se perder, eles estão tentando encontrar alguém. Esse contraste já define o tom da jornada.

Sem encontrar respostas claras, eles se juntam a um grupo de jovens estrangeiros que vivem circulando de rave em rave pelo deserto. A partir daí, o filme vira uma travessia. Carros em fila, estradas improvisadas, paradas para negociar combustível e comida. A rádio do carro começa a trazer notícias de uma possível guerra global. É sempre um ruído de fundo. Nunca vira o centro. E talvez por isso mesmo incomode mais.

A relação entre Luis e Esteban vai se desenhando nesses deslocamentos. O menino participa, pergunta, observa. Às vezes parece entediado, às vezes curioso. Luis está ali, mas não está inteiro. Ele está consumido pela busca da filha. Tem vários momentos de silêncio entre os dois dentro do carro. Silêncios carregados. Não é ausência de conversa. É excesso de coisa não dita.

O deserto vai pesando. Calor, poeira, cansaço. O desgaste físico começa a espelhar o emocional. Quanto mais avançam, menos sobra de controle. E então, sem preparação, acontece o acidente que mata Esteban. Não tem construção dramática para suavizar. É abrupto. Quase banal na forma como acontece. E isso torna tudo mais violento.

A partir dali, o filme muda de eixo. A busca pela filha deixa de ser o centro emocional. O que sobra é o vazio da perda do filho. O deserto deixa de ser caminho e vira cenário de luto. Luis continua, mas já não parece o mesmo. Não há recompensa, não há redenção clara, não há sentido organizado para o que aconteceu.

A caravana segue existindo como uma espécie de micro sociedade improvisada. Há momentos de ajuda, de cooperação, mas também tensão, escassez, risco. Aquela ideia de liberdade absoluta vai se mostrando frágil. É uma liberdade que depende de condições precárias e que pode ruir a qualquer momento.

O filme termina sem oferecer fechamento. Não há resolução clássica. Ele simplesmente para em um ponto em que o limite físico e emocional dos personagens parece ter sido alcançado. A sensação é de suspensão. Como se a travessia continuasse depois da tela apagar.

Saí do filme com a sensação de que não assisti a uma história fechada. Foi mais como atravessar um estado. O deserto não é só cenário. Ele vai reduzindo tudo ao essencial. Ego, narrativa, expectativa. E no fim sobra uma pergunta incômoda. Em que momento a gente deixa de ver quem está ao nosso lado porque está olhando demais para quem não está mais aqui.

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