Terminei a leitura de Memórias Póstumas de Brás Cubas e fiquei com a sensação de que o livro é muito mais melancólico do que costuma parecer numa primeira leitura. A ironia do Machado faz a narrativa soar leve em vários momentos, quase divertida, mas por baixo existe uma reflexão dura sobre vaidade, ambição, relações humanas e sobre a dificuldade que as pessoas têm de encontrar sentido real naquilo que fazem.
Brás Cubas me parece alguém que passa a vida inteira tentando preencher vazios sem nunca entender exatamente o que procura. Ele busca reconhecimento, status, romances, prestígio intelectual, mas nada realmente se sustenta. Até suas relações mais importantes parecem atravessadas por interesse, conveniência ou orgulho. A relação com Marcela talvez seja o exemplo mais explícito disso, mas o livro inteiro parece sugerir que quase todas as relações humanas carregam algum tipo de troca implícita.
O delírio dele também me chamou atenção. Existe algo muito simbólico naquela sequência em que a vida humana aparece quase como uma sucessão interminável de desejos, frustrações e repetições. O curioso é que Machado escreve tudo isso sem transformar o livro em algo pesado ou moralista. Pelo contrário. Muitas vezes a crítica vem escondida dentro do humor, da quebra da narrativa e da forma debochada como Brás Cubas fala da própria vida.
Outra coisa impressionante é como Machado parece moderno. Em vários momentos, parece que estamos lendo alguém observando a sociedade de hoje. A necessidade de parecer importante, o apego à imagem, as relações sustentadas por conveniência, a dificuldade de construir algo realmente profundo… tudo isso continua atual. Talvez por isso o livro permaneça tão forte mesmo depois de tanto tempo.
No fim, fiquei com a sensação de que o maior talento do Machado não está apenas na história que conta, mas na maneira como obriga o leitor a se observar enquanto lê. A gente começa julgando Brás Cubas, mas em vários momentos percebe um pouco dele em nós mesmos. Talvez seja justamente isso que faça Machado de Assis continuar tão relevante.