Mateus 9 segue o que começou no capítulo anterior. Depois do Sermão da Montanha, o evangelho muda de ritmo e passa a mostrar Jesus em movimento constante, cercado por multidões, atravessando cidades, entrando em casas, curando pessoas e provocando reações cada vez mais intensas. O texto praticamente não para. Um acontecimento se conecta ao outro, como se Mateus quisesse mostrar não apenas o que Jesus ensinava, mas o impacto concreto de sua presença por onde passava.
O capítulo começa com a cura de um paralítico, mas o ponto central da cena não é exatamente a cura física. Antes de mandar o homem se levantar, Jesus declara que os pecados dele estavam perdoados. Isso provoca indignação nos escribas, porque o texto deixa implícita uma pergunta enorme: quem pode perdoar pecados além de Deus? A cura aparece quase como confirmação visível de uma autoridade que, para os religiosos da época, parecia inaceitável.
É justamente nesse contexto que acontece o chamado de Mateus. E aqui existe uma curiosidade interessante para quem assistiu The Chosen. Na série, Mateus aparece próximo de Jesus ainda durante a preparação do Sermão da Montanha, ajudando inclusive na organização e redação das ideias. Já no texto bíblico, o chamado acontece depois do sermão e depois de vários milagres narrados nos capítulos 8 e 9. Mateus é apresentado ainda sentado na coletoria, trabalhando como publicano, até que Jesus simplesmente diz: “Segue-me”. E ele vai.
Isso torna a cena ainda mais significativa. O autor do evangelho parece inserir a própria história no meio da sequência de curas e conflitos para mostrar o tipo de pessoa que Jesus chamava. Mateus era cobrador de impostos, alguém associado à corrupção e visto como traidor por muitos judeus. Logo depois do chamado, Jesus aparece sentado à mesa com publicanos e pecadores, provocando imediatamente a reação dos fariseus. A resposta de Cristo resume bem o espírito do capítulo: “os sãos não precisam de médico, mas os doentes”.
O restante do capítulo continua acumulando acontecimentos famosos: a mulher com fluxo de sangue, a ressurreição da filha do chefe da sinagoga, a cura de cegos e de um homem mudo endemoninhado. No fim, Mateus descreve Jesus olhando para as multidões com compaixão, como ovelhas sem pastor. Talvez seja essa a grande ideia do capítulo. Jesus não aparece distante das pessoas imperfeitas, problemáticas ou rejeitadas. Pelo contrário. Em Mateus 9, são justamente essas pessoas que mais se aproximam dele.