Mateus 1 vem logo depois de Malaquias. Mas com um intervalo de cerca de quatrocentos anos. Nesse período, houve o domínio grego, com Alexandre, o Grande, depois os reinos helenísticos, a revolta dos macabeus e, por fim, o domínio romano. Não houve novos textos proféticos canônicos, mas houve transformação cultural, política e religiosa. Quando Mateus começa, o mundo já é outro.
O capítulo abre com uma genealogia que parece só uma lista, mas é uma construção bem pensada. Ele liga Jesus Cristo a Abraão e a Davi, conectando promessa e realeza. Não é uma árvore completa no sentido moderno. Há cortes e organização intencional. Os três blocos de catorze gerações indicam que Mateus está preocupado com estrutura e significado. Há também características do próprio livro que aparecem aqui desde o início. Mateus escreve pensando em um público judeu, faz questão de mostrar cumprimento de promessas e, ao longo do evangelho, recorre com frequência a expressões como “para que se cumprisse”. É um texto que tenta amarrar passado e presente o tempo todo.
No meio da genealogia, aparecem mulheres, o que chama atenção. Tamar surge na história de Judá, em um episódio marcado por engano e exposição familiar. Raabe era uma estrangeira em Jericó, associada à prostituição, que decide proteger os espias de Israel. Rute também era estrangeira, moabita, e sua história é marcada por lealdade e reconstrução. Bate-Seba aparece de forma indireta, como “a mulher de Urias”, lembrando o episódio envolvendo Davi. E, por fim, Maria, cuja gravidez antes do casamento cria tensão logo no início da narrativa. Não são personagens neutras. Cada uma carrega uma história complexa, e a presença delas muda o tom da genealogia.
Depois da lista, o texto se concentra em José. Ele descobre a gravidez de Maria antes do casamento. Pela lei, poderia expor a situação. Decide não fazer isso. O texto o chama de justo, mas essa justiça aparece como equilíbrio. Ele tenta resolver sem causar mais dano. A intervenção vem por meio de um sonho, quando um anjo explica o que está acontecendo. Esse detalhe dos sonhos lembra José em Gênesis e cria continuidade.
O capítulo apresenta também o nome “Emanuel”, Deus conosco. Se antes havia expectativa, agora aparece a ideia de presença dentro da história. Mateus 1 não é só uma introdução. Ele organiza o passado e aponta para o que vem depois, conectando promessas antigas com o início de algo novo.