Ezequiel 24 marca o fim de um bloco em que o foco é o juízo contra Israel. A partir daqui, o livro passará a falar das nações vizinhas.
Trata-se de um texto forte e difícil. Tem rigor histórico ao fixar uma data, mas também é poético e simbólico ao comparar a cidade a uma panela enferrujada. A imagem aponta para uma impureza entranhada, uma ferrugem que não sai com limpeza. O fogo não aparece como purificação, mas como juízo que expõe e consome.
No capítulo, o profeta vive o extremo de seu estilo. Ezequiel, mais do que anunciar, encena suas profecias. Ele se torna sinal para Jerusalém, não por compartilhar sua culpa, mas por carregar uma mensagem no corpo. Jerusalém perderá o templo. Ezequiel perde a esposa, o deleite dos seus olhos.
Ezequiel é proibido de manifestar luto. Um escândalo. Esse luto interditado não elimina a dor, mas a transforma em sinal. Do mesmo modo, o povo derrotado e levado ao exílio enfrentará uma perda tão grande que desorganiza ritos e palavras, como se o choque viesse antes do pranto.
Ezequiel 24 dói porque mostra o custo de permanecer em um sistema corroído. Não como determinismo, mas como consequência. Ambientes deteriorados deformam, e quando a culpa se torna entranhada, a realidade deixa de ser alerta e passa a ser juízo.