Divida cognitiva. Conceito novo. Li no blog do Martin Fowler.
Ele menciona um texto mais longo da professora Margaret-Anne Storey e conta um caso interessante. Em um curso de empreendedorismo, os alunos estavam construindo produtos ao longo do semestre. Entregas rápidas. Features novas. Pressão por marcos. Até que, lá pela semana sete ou oito, um time travou. Não conseguiam mais fazer mudanças simples sem quebrar algo inesperado.
A primeira reação foi culpar dívida técnica. Código bagunçado. Arquitetura apressada. Só que, olhando mais de perto, o problema era outro. Ninguém conseguia explicar por que certas decisões tinham sido tomadas. Nem como as partes do sistema deveriam funcionar juntas. O código rodava. Mas a teoria do sistema tinha desaparecido.
Eles acumularam dívida cognitiva mais rápido do que dívida técnica. E isso paralisou o time.
Fowler faz uma distinção importante. Cruft é sujeira. Más fronteiras, atalhos, nomes ruins. Dívida é o custo acumulado de conviver com essa sujeira. Ou você paga juros, tornando cada mudança mais difícil, ou amortiza o principal, investindo em refatoração.
No plano cognitivo é a mesma lógica. O cruft é ignorância. Ignorância do domínio. Do código. Das decisões passadas. A dívida aparece quando deixamos essa ignorância crescer. Ou pagamos juros, e cada nova funcionalidade exige mais energia mental, mais alinhamento, mais medo. Ou investimos deliberadamente para reconstruir entendimento.
Agora o problema ficou mais sério.
Tenho visto a dívida cognitiva se acumular muito mais rápido em projetos onde as pessoas simplesmente transferem o trabalho para a IA. A feature aparece. O código compila. O teste passa. Mas ninguém entende exatamente o que foi feito e por quê.
Velocidade sem compreensão é adiantamento de problema.
Estamos acelerando a entrega e desacelerando a formação. Principalmente em times mais juniores. Se a IA substitui o esforço de entender, em vez de ampliá-lo, o time terceiriza não só a execução, mas a construção de repertório.
E isso não é um problema individual. É problema de liderança. Se ninguém consegue explicar o sistema, falhou a governança técnica.
Arquitetura sempre foi sobre julgamento. Gestão de dívida cognitiva agora é parte central desse julgamento.
Dívida cognitiva não quebra o build. Quebra a capacidade do time de pensar.