Não sei o porquê de tanto alvoroço em torno dos bebês reborn. Afinal, adultos “brincando” com bonecas não é novidade. O mercado das infláveis está aí, firme e lubrificado.
A questão é quando a fantasia começa a exigir direitos civis. Ou melhor: quando atravessa a fronteira do aceitável — se é que essa fronteira ainda existe.
Ter uma bebê reborn como apoio emocional? Tudo bem. Cada um com seu consolo.
Mas levá-la a um pronto atendimento alegando febre — hoje, em 2025 — já pede outro tipo de socorro. Psiquiátrico. Para quem leva, não para a boneca.
O ponto é que essas bonecas não são mais apenas bonecas. São hiperrealistas. Têm peso, textura, expressão. Algumas choram. Ainda é som gravado, mas é só uma versão beta.
Agora imagina uma bebê reborn com inteligência artificial. Que reage ao toque. Que responde pelo nome. Que simula dor. Que olha para você como se sentisse algo.
A distância entre o brinquedo e o afeto encurta. A ilusão vira laço. E o laço vira apego.
Parece exagero? Spielberg já mostrou o caminho. No filme A.I., o menino-máquina só queria o amor da mãe.
Eu, na época, torci por ele. Pela máquina. O garoto humano era insuportável — e, mesmo assim, era gente.
Mas o que é ser “gente”, afinal? O artificial, quando bem programado, cativa mais. Afeto sob demanda. Vínculo sem atrito. Amor com botão de desligar.
E assim, o absurdo de hoje — o marmanjo de terno com a boneca no colo na fila do SUS — vira só mais um sintoma.
O grotesco e o carente já andam de mãos dadas. E quase ninguém mais se dá conta.