ENSAIO AVULSO
15 de abril de 2026 · 2 min de leitura

A música “Ordinary” pode não falar o que você acha …

Tem uma coisa curiosa nessa música. À primeira escuta, muita gente acha que é um louvor. Tem altar, oração, Senhor, anjos, céu. A estética é toda religiosa. Mas o que está acontecendo ali não é devoção a Deus. É outra coisa.

É desejo.

E não é um detalhe sutil. Está explícito. Quando aparece kissing the ground of your sanctuary, não é reverência espiritual. É intimidade tratada como se fosse sagrada. Quando diz at your altar, I will pray, não é oração a Deus. É alguém sendo colocado nesse lugar. Quando fala you’re the sculptor, I’m the clay, é entrega total, quase sem identidade própria. Quando aparece shatter me with your touch, o toque ganha um peso que beira o absoluto.

O problema não está na poesia em si. Está no deslocamento.

A música pega elementos que, por natureza, apontam para Deus e aplica em outra direção. O altar muda de lugar. O santuário muda de lugar. A oração muda de destinatário. E isso não é só estética. É substituição.

E é aqui que a coisa fica perigosa.

Porque, para quem não percebe, parece a mesma coisa. Parece profundo, elevado, quase espiritual. Mas não é a mesma natureza. Intensidade emocional pode imitar transcendência, mas não é transcendência. Desejo pode usar a linguagem da devoção, mas não é devoção.

Tem outros trechos que reforçam isso. On this side of Heaven’s gate coloca a experiência como se fosse uma antecipação do céu. The angels are jealous sugere que aquilo vivido entre duas pessoas supera o que é celestial. Não é só metáfora bonita. É uma inversão de referência.

E quando você começa a usar palavras como santuário, altar, oração para falar de outra coisa, você dilui o significado delas. Aos poucos, tudo vira a mesma coisa. E aí você perde a capacidade de distinguir.

No fim, não é sobre condenar a música. Dá para respeitar, entender o recurso, até reconhecer a força do texto.

Mas também dá para olhar com cuidado.

Porque quando alguém passa a “beijar o santuário” de outra pessoa, o problema não está na intensidade do sentimento. Está no lugar que essa pessoa ocupa.

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