Eis que continuo a leitura de A Biblioteca da Meia-noite e chego a um capítulo com o sugestivo título “Uma vida leve”. O livro não é denso como Hamlet, nem provocativo como Admirável Mundo Novo. Ainda assim, está longe de ser vazio. Pelo contrário. Ele vai deixando, quase sem alarde, algumas lições incômodas e necessárias, que vão se acumulando enquanto a leitura avança.
Uma delas é a percepção de que o arrependimento costuma carregar um peso maior do que os fatos que o sustentam. Nora Seed passou anos se culpando pela morte de seu gato, Voltaire, acreditando que sua negligência o havia levado a ser atropelado. Em outra vida possível, ao mantê-lo preso em casa, ela descobre que o desfecho seria o mesmo, provocado por uma doença cardíaca. Isso desloca algo importante. Quantos dos nossos “e se” se apoiam em premissas falsas? Nem todo fim é fruto de escolha. Às vezes é biologia, estatística ou simplesmente algo fora do nosso controle.
Outra constatação desconfortável surge quando fica claro que boa parte do sofrimento de Nora não vem apenas do que ela fez ou deixou de fazer, mas do fato de não ter realizado os sonhos dos outros. A natação era o projeto do pai. A banda, o desejo do irmão. O pub, o plano do ex-noivo. O livro expõe com delicadeza o quanto viver sob métricas alheias transforma sucesso em prisão emocional. Quando a régua não é nossa, a vida nunca parece suficiente, por mais correta que pareça aos olhos de fora.
Também chama atenção a forma como o livro desmonta a ideia de que impacto está necessariamente ligado a grandes conquistas. Nas vidas em que Nora alcança reconhecimento, prestígio ou excelência técnica, a depressão continua ali, intacta. Já em sua vida original, atos pequenos e quase invisíveis revelam um peso enorme. A ajuda a um vizinho idoso. O incentivo a um aluno inseguro. Gestos simples que sustentaram outras pessoas quando tudo parecia prestes a ruir. A vida não se constrói apenas nos palcos iluminados. Ela se tece, silenciosamente, nesses detalhes que raramente entram em currículos ou biografias.
Ao chegar ao capítulo “Uma vida leve”, Nora experimenta uma rotina comum em um abrigo de animais. Não há glória, apenas cansaço, sujeira e cheiro de cachorro. Ainda assim, algo muda. A mesma cidade de Bedford, que antes parecia um túmulo, passa a oferecer possibilidades quando vista por outra lente. A lição que começa a se consolidar é simples e exigente ao mesmo tempo. Não é preciso outro universo para viver melhor. É preciso aprender a enxergar este de outro modo.
Como no xadrez ensinado pela Sra. Elm, enquanto houver um peão no tabuleiro, o jogo não terminou. Nora começa a entender que ser um peão não significa fracasso. Significa movimento. Uma vida comum, leve, ainda carrega a potência de avançar e se transformar, casa por casa, naquilo que ela mesma decidir ser.