Acabei de ler um artigo do Gregor Hohpe chamado “The digital grass isn’t greener. It isn’t grass.” Ele compara big techs e empresas tradicionais. E fez muito sentido para mim.
Para quem não conhece, o Greg é autor de Enterprise Integration Patterns e de The Software Architect Elevator. Dois livros que influenciaram muito a forma como eu penso arquitetura.
A provocação é simples. A gente compara big tech com empresa tradicional como se fosse a mesma coisa. Como se fosse a mesma grama, só que mais verde do outro lado. Mas muitas vezes nem é grama. E a comparação já nasce enviesada.
Pegamos o melhor case da big tech, o time mais maduro, a prática refinada há anos, e comparamos com o processo mais engessado da organização tradicional. É uma comparação assimétrica.
Cada lado enxerga o outro por uma versão caricata. Como foto de Instagram. Enquadramento perfeito. Só aparece o que funciona. Não aparece o custo, o erro, o risco assumido.
Gente da empresa tradicional olha para a big tech e pensa, precisamos ser assim. Gente da big tech olha para a tradicional e pensa, eles são lentos porque querem. Os dois lados discutem imagens, não realidade.
Mas essa visão não é unânime. Há gente lúcida nos dois contextos. Só que as caricaturas fazem mais barulho.
Outro ponto importante. Muitas organizações tradicionais são como são porque precisam ser. Pela natureza do negócio, pelo ambiente regulatório, pelo nível de responsabilidade, pelo legado acumulado. Não é só falta de coragem.
Big tech também não é o “estágio evoluído” da empresa tradicional. Não existe linha reta onde todo mundo deveria chegar. São modelos diferentes respondendo a estratégias diferentes.
Eu conheço as duas realidades. Já trabalhei em ambientes altamente regulados, onde um erro pode virar manchete. E também já acompanhei contextos mais leves, com outro nível de risco tolerado. São jogos diferentes, com trade-offs diferentes.
Nas consultorias eu vejo o mesmo padrão. Querem ser como Amazon ou Netflix, mas mantêm os mesmos incentivos. Premiam esforço em vez de impacto. Preservam fila de aprovação para quase tudo.
Aí vem a mudança de fachada. Squad no organograma, daily no calendário, OKR no mural, ferramenta nova. Resultado antigo.
O exemplo das seis páginas da Amazon é emblemático. Parece simples. Mas não é formato, é sistema. Exige gente que pensa e escreve bem, disciplina e cultura que sustente confronto produtivo. Copiar a prática visível sem construir a capacidade invisível só adiciona burocracia com linguagem moderna.
Talvez a pergunta errada seja “como eu viro big tech?”. A pergunta certa é “qual problema eu preciso resolver no meu contexto e quais trade-offs estou disposto a assumir?”.
Transformação não é sobre parecer moderno. É sobre ser coerente com o jogo que você escolheu jogar.
Não existe grama mais verde. Existe contexto, escolha e consequência.