O dinheiro é um ótimo servo, mas um péssimo senhor. Fazer as coisas com dinheiro é muito bom. Fazê-las por dinheiro é perdição. O problema começa quando o meio ocupa o lugar do fim.
Como servo, o dinheiro amplia possibilidades. Quando vira senhor, passa a decidir por você.
A relação com o dinheiro é sempre traiçoeira. Ele, como servo, fica o tempo todo sussurrando. E quando você menos percebe, lá está ele mandando em você. Vez ou outra eu preciso colocar as coisas no lugar. Lembrar por que sou consultor. Por que sou mentor. Por que tenho uma empresa. Já transformei algo que me dava prazer em meta de receita. Já deixei expectativa financeira contaminar o que antes era leve. Quando percebi, o que era fim virou instrumento. O servo havia trocado de lugar com o senhor.
Quando algo que era hobby vira meta de receita, o que era leve se torna obrigação. O espontâneo passa a ser cobrado. O senhor começa a ditar o ritmo.
Tenho um amigo que adorava cozinhar. Abriu um restaurante e passou a odiar o que fazia. Cozinhar não mudou. O que mudou foi o comando. Antes, o dinheiro era servo da experiência. Depois, tornou-se senhor das decisões. Onde havia pessoas entrando pela porta, passaram a existir cifras.
Tudo o que não tem justificativa em si mesmo se torna descartável quando surge um caminho mais rápido para o mesmo resultado.
Quem serve ao dinheiro mede tudo em resultado. Quem o mantém como servo mede em significado. O senhor exige eficiência. O servo permite sentido.
Quantos sonham em ganhar na loteria para não trabalhar mais? Quantos mantêm relações por dependência financeira? Quantos deixam de comprar algo que desejam não porque não podem, mas porque não querem gastar? Em cada caso, a pergunta é a mesma: quem está no comando, o servo ou o senhor?
No fim, há uma ironia. O dinheiro como senhor é ingrato. Ele sempre abandona quem o serve. Quando você o serve, ele cobra. Quando ele o serve, ele cresce.