Há momentos em que eu me transformo. Não é algo espetacular, mas é real. A voz endurece. A escuta diminui. A necessidade de responder na hora cresce.
No instante, tudo parece legítimo. Eu me sinto atacado, pressionado, ameaçado. Reajo. Argumento. Aperto.
Depois passa. Sempre passa.
E quando passa, eu me vejo quase como espectador da cena e penso: não precisava. A reação foi maior que o fato. E pior, não foi neutra. Feriu. Criou tensão. Deixou resíduos. Aquilo não era o meu melhor.
Li Inteligência Emocional, de Daniel Goleman, e foi ali que encontrei o termo que mudou minha forma de entender esses episódios: sequestro da amígdala.
A amígdala é uma estrutura primitiva do cérebro responsável por detectar ameaças. Quando ela interpreta perigo, assume o controle antes que o córtex racional consiga avaliar com calma. O corpo entra em modo de luta ou fuga. O mundo simplifica. A nuance desaparece. O instinto acelera a resposta.
Não é maldade. Não é caráter. É biologia.
Há situações que favorecem esse sequestro. Dormir mal. Comer mal. Cansaço acumulado. Estresse prolongado. O sistema já está sobrecarregado. Daí, basta uma fechada no trânsito, uma crítica mal colocada, uma mensagem ambígua e pronto. Onde não havia ameaça real, meu cérebro registra risco. E eu ajo como se estivesse sob ataque.
O problema é que o ataque passa a existir porque eu o crio. Elevo o tom. Ironizo. Endureço. No mínimo, ficam ressentimentos.
Na tradição católica, há um detalhe forte no rito de exorcismo: pergunta-se o nome do demônio. Dar nome faz parte do enfrentamento. O que não tem nome se esconde atrás de justificativas elegantes. O que tem nome pode ser reconhecido.
Quando li Goleman, senti que tinha descoberto o meu. Sequestro da amígdala.
Dar nome não elimina o fenômeno. Mas muda a posição. Depois dessa leitura, comecei a prestar atenção aos sinais físicos. O calor subindo. A respiração encurtando. A urgência de vencer a discussão.
Aprendi que nomear a emoção já reduz sua força. Dizer internamente “estou com raiva” ou “estou me sentindo ameaçado” devolve parte do controle ao córtex racional.
Passei a criar intervalos. Respirar antes de responder. Não enviar a mensagem imediatamente. Adiar conversas importantes quando estou exausto. Dormir melhor. Cuidar da alimentação. Parece banal, mas um cérebro descansado é menos paranoico.
Também me forço a perguntar: isso é realmente uma ameaça ou é apenas desconforto? Muitas vezes, é só desconforto.
Nem sempre consigo interromper. Ainda erro. Ainda reajo. Mas já não posso dizer que não sei o que está acontecendo. Não é mais um “temperamento forte”. É um mecanismo natural que pode ser regulado. E, justamente por poder ser regulado, passa a ser minha responsabilidade.
Talvez maturidade seja isso: reconhecer o próprio mecanismo de defesa, dar-lhe nome e decidir que ele não vai governar minhas relações.
Emoção é inevitável. Agressão não precisa ser.