“Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”
Jesus diz isso na cruz. Assim Davi começa o Salmo 22.
Não é uma coincidência pequena. Nos relatos da crucificação de Jesus Cristo, essa frase aparece como um grito de dor. Mas quem conhecia as Escrituras reconheceria imediatamente o início de um salmo inteiro.
E o texto de Davi é intrigante.
Ele foi escrito cerca de mil anos antes da crucificação existir como método de execução. Ainda assim, a descrição do sofrimento do justo lembra muito o que os evangelhos relatam: um homem cercado por inimigos, zombaria pública, sensação de abandono, sede extrema e até a divisão das roupas.
O salmo diz que repartem suas vestes e lançam sortes sobre sua túnica. Nos relatos da crucificação é exatamente isso que os soldados fazem aos pés da cruz.
Há um detalhe no texto que sempre chamou atenção. Em muitas traduções aparece a frase “traspassaram minhas mãos e meus pés”. Alguns manuscritos antigos, como a Septuaginta, trazem essa leitura. Em outros textos hebraicos a frase aparece de forma difícil, algo como “como um leão minhas mãos e meus pés”. A expressão sempre chamou atenção justamente porque parece apontar para um tipo de ferimento que Davi não teria como conhecer.
Alguns versículos antes aparece outra imagem forte. O salmo diz: “eu sou verme e não homem”. A palavra hebraica usada ali é tola‘at. O mesmo termo também era usado para um pequeno inseto que vivia preso à madeira e do qual se extraía um corante vermelho intenso, o escarlate usado na antiguidade.
Quando esse inseto era esmagado, liberava o pigmento vermelho. A imagem no salmo é de humilhação extrema. Algo pequeno, esmagado, preso à madeira.
Quando o salmo é lido à luz da cruz, esses paralelos ficam difíceis de ignorar.
Mas talvez o ponto mais importante esteja no movimento do próprio texto. O salmo começa com abandono, mas não termina ali.
O justo sofre, clama, e depois declara que Deus respondeu. No final, o salmo fala de um testemunho que alcança gerações futuras e povos distantes.
Quem conhece o salmo inteiro percebe algo curioso. O grito que começa na cruz não termina em desespero. Termina em esperança.