A cena é uma reunião de acionistas.
Um investidor pega o microfone e cita uma frase do próprio Charlie Munger:
“Eu prefiro o cara com QI 130 que acha que tem 120, do que o cara com QI 150 que acha que tem 170.”
A pergunta é sobre julgamento. Sobre inteligência. Sobre excesso de confiança.
Munger responde, quase seco:
“Você deve estar pensando no Elon Musk.”
Risos.
Mas ele continua.
“É claro que eu quero o sujeito que entende suas próprias limitações, em vez do sujeito que não entende. Por outro lado, eu aprendi algo terrivelmente importante na vida. Aprendi isso com Howard Ahmanson. Você sabe o que ele costumava dizer? ‘Nunca subestime o homem que se superestima.’ Esses sujeitos estranhos que se superestimam às vezes acertam em cheio, mandam a bola para fora do estádio. E essa é uma parte muito desagradável da vida moderna. Mas eu aprendi a me ajustar a isso. Não tenho alternativa. Isso acontece o tempo todo. Mas eu não quero que minha vida pessoal seja um bando de caras vivendo em estado de delírio, que ocasionalmente dão uma grande tacada. Eu quero a pessoa prudente.”
Essa fala é mais honesta do que parece.
Ele começa afirmando uma preferência. Prudência. Gente que entende limite. Gente que sabe o que não sabe.
Mas ele admite outra coisa. O mundo não recompensa apenas essa virtude.
O espetacular raramente é alcançado sem algum grau de excesso, risco ou autoconfiança elevada. Há gente que se superestima, promete demais, ignora probabilidades. E, vez ou outra, entrega algo extraordinário.
Negar isso é ingenuidade histórica.
Só que aqui está o ponto mais interessante: Munger não mudou de preferência. Ele mudou a expectativa sobre como o mundo funciona.
Ele continua preferindo o prudente. Continua valorizando redução de erro, longevidade, composição paciente.
Mas deixou de acreditar que esse é o único jogo que gera grandeza.
Há dois jogos convivendo na história.
Um é o jogo da preservação. Longevidade. Redução sistemática de erro. Construção paciente ao longo do tempo.
Outro é o jogo da assimetria. Ruptura. Aposta concentrada. Volatilidade extrema em busca de upside desproporcional.
Os dois produzem resultado.
Os dois têm custo.
Os dois têm risco.
Não são excludentes no mundo real. Você inevitavelmente convive com ambos.
No fim, é preferência de jogo.
Você pode escolher o jogo que combina com seu temperamento, sua tolerância a risco, sua visão de longo prazo.
O que não dá é fingir que o outro não funciona.
Compreender isso não obriga você a se tornar excessivo.
Mas obriga você a abandonar a ingenuidade.
E talvez essa seja a parte mais madura da fala do Munger.
Não é sobre Musk.
É sobre entender o tabuleiro como ele é, assumir suas preferências, e aceitar que não é apenas o seu jeito que produz grandeza.