Acabei de ler “O Estrangeiro”, de Camus. Leitura fácil por um lado. Difícil pelo outro. Deixa eu explicar. A escrita é simples. Direta. A história começa com a morte da mãe de Meursault. Ele vai ao enterro, não chora, volta para casa e segue a vida. Depois vêm o trabalho, um relacionamento, amizades ambíguas, um dia de calor extremo na praia que termina em violência. A narrativa é objetiva. Sem psicologismo. Sem justificativas elaboradas.
O livro é muito bom. E o “estrangeiro” do título não é alguém fora do país. É alguém fora do jogo simbólico. Meursault é estrangeiro neste mundo porque não participa da encenação coletiva. Ele não performa luto. Não dramatiza amor. Não fabrica arrependimento. Ele apenas vive. Sente calor. Fuma um cigarro. Dorme mal. Responde quando perguntam. Nada além disso.
Camus mostra o que acontece quando alguém decide não inventar uma explicação transcendental para o que vive. Sem promessa de redenção. Sem consolo religioso forçado. Sem dramatização moral. Apenas lucidez. E essa lucidez é ameaçadora. Porque expõe o quanto dependemos de histórias para organizar o caos.
O livro deixa uma pergunta desconfortável. Se aceitássemos que as coisas são como são, sem tentar encaixá-las em um grande enredo metafísico, como seríamos tratados? Talvez como Meursault. Estrangeiros. Não por estarmos fora do país. Mas por estarmos fora da ilusão.