Lendo Admirável Mundo Novo, a sensação não é de estar diante de um futuro distante. É a de reconhecer padrões. O livro não descreve um mundo violento ou opressor. Pelo contrário. Tudo funciona. As pessoas estão satisfeitas, entretidas, reguladas emocionalmente. E isso é exatamente o que incomoda. Porque o preço dessa estabilidade é quase invisível.
No livro, ninguém é proibido de pensar. Só não há espaço para isso. A vida é tão preenchida por estímulos, prazeres rápidos e soluções imediatas que o pensamento profundo simplesmente não encontra silêncio para acontecer. Lendo, é impossível não pensar no nosso dia a dia. Notificações constantes, consumo infinito de conteúdo, dificuldade real de sustentar atenção por muito tempo. Não porque alguém nos impede, mas porque fomos nos acostumando a não parar.
O tal do soma, a droga que elimina qualquer desconforto, é menos sobre química e mais sobre mentalidade. No livro, sentir dor é visto como falha do sistema. Hoje, algo parecido acontece. Qualquer incômodo precisa ser resolvido rapidamente. Tédio vira inimigo. Tristeza vira algo a ser corrigido. Ansiedade vira algo a ser silenciado. Não se pergunta mais o que a dor revela. Só se quer que ela desapareça.
As relações também chamam atenção. No mundo de Huxley, vínculos profundos são evitados porque geram instabilidade emocional. Tudo é rápido, leve, sem memória. Lendo isso, é difícil não traçar paralelos com uma cultura que valoriza liberdade emocional entendida como ausência de compromisso. Menos risco, menos dor, menos entrega. Funciona. Mas deixa um vazio estranho no meio.
Outra coisa que salta aos olhos é a forma como a verdade é tratada. No livro, arte, filosofia e ciência só sobrevivem se não ameaçarem a estabilidade social. Não é ignorância. É escolha. Hoje, quantas vezes evitamos conversas difíceis porque geram conflito? Quantas vezes preferimos versões simples, rápidas e confortáveis da realidade porque a complexidade cansa? O verdadeiro não desaparece. Ele apenas se torna inconveniente.
O mais perturbador é que nada disso é imposto à força. No livro, ninguém quer fugir. Ninguém sente falta de liberdade porque nunca aprendeu a desejá-la. E esse é o ponto em que a leitura começa a incomodar de verdade. Quando percebo o quanto delegamos decisões, opiniões, escolhas e até valores em troca de conforto mental, a pergunta deixa de ser literária. Ela fica pessoal.
Ler Admirável Mundo Novo não dá vontade de gritar contra um sistema. Dá vontade de olhar para a própria rotina e perguntar onde, pouco a pouco, fui trocando profundidade por facilidade. Não é um livro que acusa. É um livro que espelha. E esse tipo de espelho quase nunca é agradável.