Acabei de ler A Metamorfose, de Franz Kafka. Clássico. Incômodo. Curtinho.
É um livro menos sobre uma transformação absurda e mais sobre metamorfoses que reconhecemos, ainda que evitemos nomear. Kafka usa o insólito para falar do cotidiano. A mudança extrema apenas torna visível algo que já acontece de forma lenta e silenciosa na vida real.
Pessoas envelhecem. Adoecem. Perdem autonomia. Deixam de se comunicar como antes. Mudam hábitos. Às vezes se tornam difíceis de conviver. Em certos casos, até repulsivas aos olhos de quem convive. Nada disso acontece de um dia para o outro. Mas, quando percebemos, a relação já mudou.
O ponto central da obra é que essas metamorfoses não afetam apenas quem muda. Elas reorganizam o entorno. Afetam a paciência, a empatia, os acordos tácitos. Testam os limites entre cuidado e tolerância. E expõem o quanto nossa noção de identidade está amarrada à funcionalidade.
Kafka não acusa. Ele observa. Mostra como, diante da perda de utilidade, a pessoa corre o risco de perder também o lugar simbólico que ocupava. A identidade passa a ser questionada não pelo que se é, mas pelo que já não se consegue fazer.
Talvez seja por isso que a leitura incomode tanto. Porque reconhecemos ali experiências comuns demais. A obra não fala de monstros, mas de pessoas reais, em versões que preferimos não antecipar. E nos obriga a encarar uma pergunta incômoda: quando a metamorfose chega, o que sustenta o vínculo? O afeto, ou a utilidade?
Kafka não responde. Ele apenas deixa a pergunta em aberto. E isso, talvez, seja o aspecto mais perturbador de todos.