Li Sonho de uma Noite de Verão, de Shakespeare. Curtinho. Intenso. Engraçado.
Algumas reflexões da leitura.
- O amor não nasce da razão, mas a desafia. Filosoficamente, o amor pertence ao campo do eros, não do logos. Ele antecede justificativas, ignora coerência e frequentemente entra em choque com aquilo que chamamos de juízo. Exigir racionalidade do amor é pedir que ele deixe de ser o que é.
- A instabilidade emocional é constitutiva do humano. A peça não retrata exceções, mas a regra. O ser humano não é estável por natureza; ele oscila conforme estímulos, desejos e contextos. A ideia de constância absoluta é mais ideal moral do que realidade antropológica.
- Amar é projetar sentido no outro. Grande parte do que chamamos de amor é um exercício de imaginação. Amamos narrativas, promessas, possibilidades. O outro funciona como superfície onde projetamos nossos anseios mais profundos, e isso explica tanto a intensidade quanto a frustração.
- Nenhuma autoridade governa o afeto. A tentativa de legislar sentimentos revela um equívoco clássico do poder: confundir obediência externa com adesão interna. A lei organiza a cidade, mas é impotente diante do desejo. Onde o amor é forçado, ele se corrompe ou se esconde.
- O ambiente revela o que a ordem reprime. O bosque não cria o caos, apenas remove os filtros. Quando a estrutura social afrouxa, o que emerge não é algo novo, mas o que já estava latente. Ambientes não apenas moldam comportamentos; eles revelam verdades ocultas.
- A confusão não é falha moral, é condição existencial. Buscar clareza absoluta em meio às paixões é ignorar a natureza do conflito humano. A confusão emocional é o preço da liberdade afetiva. Onde há escolha, há ambiguidade. Onde há ambiguidade, há angústia.
- O cômico é uma forma elevada de verdade. O riso não banaliza, ele desnuda. Ao tornar o drama risível, Shakespeare expõe o absurdo das nossas certezas. O humor desarma defesas morais e permite enxergar aquilo que, em tom solene, rejeitaríamos.
- Poder sem autodomínio produz desordem. Mesmo seres mágicos erram quando agem movidos por impulso. A peça sugere uma tese forte: autoridade sem sabedoria interna amplia o caos em vez de contê-lo. Não é o tamanho do poder que importa, mas sua maturidade.
- O amor idealizado é frágil; o escolhido é ético. O amor que depende apenas de emoção não resiste ao tempo. O que permanece é aquele que atravessa o desencanto e se converte em decisão. Aqui, Shakespeare toca uma distinção profunda entre paixão e compromisso.
- A restauração da ordem não apaga a experiência. Ao final, tudo parece resolvido, mas ninguém retorna ao ponto de partida. A experiência deixa marcas. Filosoficamente, isso afirma que viver é irreversível. Não há retorno à inocência, apenas integração do vivido.