Concluir O Alienista é perceber que a história nunca foi sobre loucura. Foi sobre a arrogância das certezas.
Simão Bacamarte não é um vilão passional, é um homem disciplinado, coerente, comprometido com o método. E justamente aí mora o perigo. Ele não se deixa corromper por dinheiro ou vaidade explícita. Ele se deixa conduzir pela própria convicção. Quando a teoria vira lente única, tudo passa a caber nela. E o mundo deixa de ser mundo para virar experimento.
Machado de Assis escreve com ironia controlada. Não há exagero. Não há grito. Há precisão. Ele ri da fé cega na ciência sem negar a importância da razão. Ele critica o cientificismo, não o pensamento. A Casa Verde é menos um hospício e mais um símbolo do poder técnico legitimado por discurso racional.
Quem define a norma define o destino. E quem controla a régua controla as pessoas.
O movimento mais brilhante da obra é a inversão final. Quando quase todos são considerados insanos, o critério muda. Quando os excessivamente virtuosos passam a ser suspeitos, entendemos que o problema nunca esteve nos indivíduos. Esteve na obsessão classificatória. Machado expõe a fragilidade da ideia de normalidade. Normal é sempre construção. E construção depende de quem constrói.
Há também um retrato social desconfortável. Itaguaí se adapta, protesta, negocia, se revolta e depois acomoda novamente. A população não é heroica nem vilã. É conveniente. Tolera o poder enquanto não dói demais. Isso talvez seja o ponto mais atual do livro. O autor não critica apenas o médico. Critica o sistema que o legitima.
No fundo, a obra parece sugerir que a maior loucura não é perder a razão, mas absolutizá-la. Quando a razão deixa de ser instrumento e vira fim em si mesma, ela perde a capacidade de autocrítica. E sem autocrítica, qualquer método se transforma em tirania elegante.
Terminar a leitura deixa uma sensação estranha. Não há explosão dramática. Há silêncio. O silêncio de quem percebe que o problema não é o outro, não é o louco, não é o diferente. O problema é a confiança excessiva de que somos capazes de definir, com segurança definitiva, o que é equilíbrio.
E talvez essa seja a ironia maior. A verdadeira sanidade começa quando desconfiamos das nossas próprias certezas.