Li um texto do Seth Godin sobre o chamado vale da estranheza. É aquele desconforto que aparece quando algo parece humano, mas não é exatamente humano.
Um rosto quase real. Uma voz quase natural. Um atendimento que soa como gente, mas reage como máquina.
A gente percebe que tem algo errado, mesmo sem conseguir explicar direito o quê.
Esse fenômeno não nasceu com a IA. Mas a IA colocou isso em todo lugar.
Todo dia recebo uma ligação telefônica com uma atendente digital que quer parecer gente. A voz tenta soar natural. O roteiro tenta parecer conversa. A ideia da companhia não é me enganar. É ganhar escala no atendimento. Mesmo assim, alguma coisa ali quebra a confiança.
O argumento do Seth vai nessa linha. O problema não é só o vale da estranheza. É a quebra de expectativa. Quando algo parece humano, mas não é, o cérebro percebe. E quando percebe, começa a desconfiar. Não só do mensageiro, mas da mensagem.
Tenho pensado bastante nisso porque uso IA todos os dias. Inclusive já clonei minha própria voz com IA.
Funciona bem. Tem gente que diz que engana. A mim, não.
Não estou usando isso para produzir conteúdo ou mandar mensagens. Justamente para evitar aquela situação estranha de algo que parece comigo, mas não é exatamente eu. Sem falar que seria enganar mesmo, né?
Ainda assim, acho que a ideia tem suas aplicações. Embora eu ainda não saiba exatamente quais.
Por outro lado, tenho usado IA intensivamente de outra forma. Construí uma assistente chamada Márcia que consulta meus sistemas, CRM, agenda e dados da empresa.
Eu faço perguntas em linguagem natural e ela vai buscar as respostas onde precisa buscar.
Márcia faz trabalho de gente, mas sem fingir que é. Ela assume que é máquina. Não disfarça. Quem fala com ela sabe disso.
Talvez essa seja uma boa forma de pensar o uso de IA. Usar para ampliar capacidade. Para acessar informação. Para executar tarefas que até pouco tempo só gente conseguia executar. Mas de um jeito agente, não gente.
Porque quando a simulação fica “quase boa”, ela não convence.
Márcia fala a nossa língua, mas sempre será estrangeira. E tudo bem.
O destaque dela é ser uma boa agente. Fala como gente para facilitar a interação, não para enganar.
A propósito, as ideias deste texto são minhas. A redação inicial também.
Tenho certeza de que você percebe a humanidade nisso.
Mas a revisão é da IA.
E eu sei que você percebe isso também.