Comecei a ler O Senhor das Moscas sem saber exatamente o que esperar. O título me intrigava, mas não fazia muito sentido. Não entendia por que aquela história carregava esse nome. Avancei sem respostas claras até chegar ao capítulo 9. Ali, tudo se encaixa. E o título deixa de ser apenas um nome.
Em O Senhor das Moscas, o título original (Lord of the Flies) traduz diretamente Beelzebub, termo hebraico (Ba‘al Zebub) que significa, literalmente, “senhor das moscas”. Na tradição bíblica e medieval, Beelzebub não é apenas mais um demônio. Ele está associado à corrupção, à putrefação, ao mal que se instala onde a vida já apodreceu. Moscas não criam a podridão. Elas chegam depois.
Golding explora essa imagem com precisão quase cruel. A cabeça do porco não é um ídolo poderoso. É um resto. Um subproduto da violência celebrada. O “senhor das moscas” não governa porque impõe força, mas porque surge quando a decomposição moral já aconteceu. O mal, aqui, não seduz com promessas grandiosas. Ele apenas dá nome ao que já está em curso.
É por isso que Simon “conversa” com ele. A figura não tenta convencê-lo de nada novo. Apenas verbaliza o que Simon já intuiu: o monstro não é algo que possa ser caçado, derrotado ou expulso. Ele é a consequência inevitável quando medo, prazer na violência e abdicação da responsabilidade se combinam. Beelzebub, nessa leitura, não é causa. É diagnóstico.
Há, ainda, um contraste teológico relevante. Em muitas narrativas religiosas, o mal é externo, tentador, ativo. Aqui, não. Ele é passivo e parasitário. Vive do que sobra. Alimenta-se da carcaça deixada pelas escolhas humanas. Golding desmonta, com isso, a ideia confortável de que “algo nos corrompeu”. Não. Nós produzimos o ambiente onde a corrupção floresce.
Isso também explica por que apenas Simon compreende. Beelzebub não fala com líderes nem com multidões. Ele aparece a quem está sozinho, em silêncio, diante do resultado final das ações coletivas. A revelação não é mística no sentido sobrenatural. É existencial. Quando se encara o que restou, sem distrações, a verdade “fala”.
Em resumo: Beelzebub não é o vilão que move a história. É o nome antigo daquilo que sempre aparece quando a humanidade terceiriza a culpa, abandona o cuidado e transforma medo em método. Golding não ressuscita um demônio medieval. Ele dá um nome clássico a um problema permanentemente moderno.