Acabei de ler “AI slop”, do Seth Godin. Ele acerta em cheio num ponto que muita gente está tentando empurrar para a ferramenta. Tem uma enxurrada de textos ruins sendo atribuídos à IA, especialmente esses que estão se multiplicando nas redes sociais. Mas conteúdo ruim não nasce de IA. Nasce de um processo que aceita mediocridade.
Seth é referência para mim. Um dos melhores do mundo em marketing, posicionamento e construção de ideias que se espalham. Autor de “Tribos” e “O melhor do mundo”, ele tem um talento raro para dar nome ao problema antes de todo mundo.
A tese dele é simples. Não é slop porque foi feito por IA. É slop porque é slop.
Ele conta que leu as primeiras páginas de um romance “orgulhosamente sem IA” e era ruim do mesmo jeito. Prosa empolada. Diálogo morto. Página que não se sustenta. A ausência de IA não compra qualidade. A presença de IA não autoriza lixo.
O que mudou não é a existência do slop. É o custo.
Antes, para produzir lixo em escala, você precisava de tempo, gente e orçamento. Isso freava o estrago. Agora o custo marginal tende a zero. E quando o custo tende a zero, o único freio que resta é cultural.
Na prática, é onde o slop vira operação. Release notes que não dizem nada. Documentos que não decidem. Propostas que parecem escritas para não se comprometer. Conteúdo que existe só para cumprir calendário.
Eu vejo isso o tempo todo em times técnicos. Não é só marketing. A linguagem vira dívida técnica. Texto frouxo vira reunião. Reunião vira retrabalho. Retrabalho vira atraso. E, no fim, a empresa paga caro por ter decidido que escrever bem era “um detalhe”.
Por isso a pergunta mais forte do Seth é a última. A pergunta não é “quem fez isso?”. É “quem aprovou isso?”. “Quem fez” é a pergunta de quem quer culpar. “Quem aprovou” é a pergunta de quem quer governar.
Governança aqui não é burocracia. É critério de aceite.
Se a sua cultura premia volume, você vai publicar slop. Com IA ou sem. Se a sua cultura premia velocidade sem responsabilidade, você vai publicar slop. Com IA ou sem. E se ninguém tem autoridade para dizer “isso não representa a gente”, o slop vira padrão. Vira marca.
Aqui vai o meu processo. Eu escrevo. A IA refina. Eu reviso. A decisão final é minha. IA é ferramenta de expansão, não de substituição de julgamento.
Quer usar IA? Use para rascunhar, explorar alternativas, acelerar o que já tem direção. Mas não use IA para terceirizar julgamento. Julgamento é onde mora o valor.
O ser humano tem papel primário. A responsabilidade é dele. Logo, a decisão também.
O debate não é sobre autoria. É sobre aprovação. E sobre quem assume a responsabilidade por ela.