Todo mundo entende a App Store. Você abre a loja, procura um aplicativo, instala e torce para ele fazer exatamente o que você imaginou. Convenhamos: isso quase nunca funciona tão bem quanto parece. Quantos aplicativos inúteis você já instalou? Quantos você até pagou, só para descobrir que não atendiam sua expectativa?
Ainda assim, o modelo foi brilhante. Ele organizou o caos digital por quase duas décadas. Mas carrega uma suposição silenciosa: existe um conjunto razoável de necessidades e, para cada uma delas, alguém vai empacotar um aplicativo estável, com tela, botões e um jeito certo de usar.
O problema é que essa suposição começa a falhar quando a necessidade deixa de ser genérica. A vida real não vem empacotada. O que eu preciso quase nunca é um “aplicativo”. É uma combinação: meus dados, minha rotina, um prazo curto e uma pergunta específica demais para caber num produto feito para milhões.
Um exemplo simples: quero acompanhar meu cardio por oito semanas, do meu jeito, com as minhas métricas, cruzando sono, glicose e agenda. Não é o caso típico de um app. É um recorte pessoal, contextual e temporário. É aqui que a mudança começa. Em vez de instalar um aplicativo pronto, eu passo a montar uma solução na hora.
No lugar de uma loja de produtos fechados, surge uma prateleira de capacidades. Não são caixas. São peças. O que aparece no lugar da App Store não é outra loja com os mesmos apps. É uma prateleira de sensores e atuadores. Sensor é tudo que vira dado. Pode ser físico, como o Oura, um anel que monitora sono, recuperação e atividade, ou o Libre, um pequeno adesivo aplicado no braço que mede glicose continuamente.
Pode ser digital: agenda, e-mail, Drive, extrato bancário, CRM, logs do sistema. Corpo e trabalho convertidos em fluxo de informação. Atuador é tudo que executa ação: enviar um e-mail, abrir um chamado, agendar uma consulta, registrar um pagamento, ajustar uma luz, atualizar um cadastro.
O aplicativo tradicional mistura sensor, atuador, tela e fluxo num pacote fechado. Você compra o pacote inteiro e paga, inclusive, pelo que não usa. No modelo agêntico, eu não compro o pacote. Eu habilito capacidades. Conecto o que mede. Conecto o que executa.
E deixo alguém orquestrar. Esse “alguém” é um assistente-agente. Ele conversa, faz perguntas, entende intenção e coordena as peças. Você não caça aplicativo. Você declara intenção. Quer acompanhar o cardio por oito semanas, cruzando sono, glicose e agenda. Quer ser avisado se algo sair do padrão.
Quer receber, toda sexta-feira, um resumo de progresso pelo WhatsApp. A interface agêntica pega essa intenção, usa seu contexto autorizado e chama ferramentas. Lê sensores físicos e digitais. Detecta desvios. Gera síntese. Decide quando agir e quando apenas observar.
A tela, quando existir, vira saída. Deixa de ser o centro do produto. Isso não é mágica. É orquestração. E orquestração sem regra vira caos. Quando montar software fica barato, o caro passa a ser governança. Quem autorizou? Quais dados foram usados? O que foi executado?
Onde está a trilha? Sem rastreabilidade, não há confiança. A App Store não vai acabar. Mas tende a perder protagonismo. Porque o mundo ficou específico demais para caber em caixas fechadas.