Outro dia, assistindo uns videozinhos por distração, encontrei um que quase destruiu uma das melhores memórias da minha infância.
Um homem cantava, em pulmões fortes, as primeiras frases da música que abre O Rei Leão. Aquela mesma abertura que a gente cresceu ouvindo como se fosse um mantra africano cheio de mistério, espiritualidade e sabedoria ancestral.
Ele começou cantando a letra original, em zulu:
“Nants ingonyama bagithi baba
Sithi uhm ingonyama
Ingonyama”
E então explicou a tradução aproximada:
“Olha o leão chegando aí, pai…
Sim, é um leão…
Um leão.”
Só isso.
Nada de revelações profundas sobre os ciclos da vida ou sobre a ordem cósmica da savana. É basicamente alguém anunciando para quem está por perto:
“Gente, presta atenção. Tem um leão vindo.”
Alguns vídeos até traduzem de um jeito ainda mais direto, quase cotidiano:
“Olha o leão, meu Deus, um leão! Corre, rapaz!”
E pronto. Em poucos segundos você percebe que aquele canto que parecia uma invocação ancestral também pode ser entendido como a versão musical de alguém avisando a vizinhança:
“Ó o leão passando aí!”
Me indignei. Me senti enganado. Espalhei para mais gente. Mais gente indignada.
Daí eu fiz o que deveria ter feito desde o começo. Fui pesquisar.
E aí descobri que a história é um pouco mais interessante.
A frase “Nants ingonyama bagithi baba” realmente significa algo como “olha o leão aí, pai”. Mas não no sentido banal que a internet gosta de sugerir. Na cultura zulu, chamar alguém de “pai” também é uma forma de respeito, de chamar a atenção de alguém mais velho ou de alguém com autoridade.
E o leão ali não é simplesmente um leão qualquer.
É o leão que chega para assumir o lugar de rei.
Ou seja, o cantor não está só gritando que tem um leão vindo. Ele está anunciando a chegada de um rei. Está chamando os outros para testemunhar isso.
De certa forma, a cena que a Disney construiu no filme está perfeitamente alinhada com o espírito da letra.
Então não, minha infância não foi destruída.
No máximo, ganhou uma camada nova.
E essa pequena história também deixa uma lição curiosa. A forma mais eficiente de mentir muitas vezes é contar uma verdade. Não uma mentira descarada, mas um pedaço correto da história, apresentado de um jeito que leva à conclusão errada. Metade da verdade, quando o resto é omitido, pode virar uma mentira completa.
Isso talvez seja mais relevante hoje do que nunca. Porque nunca foi tão fácil pegar um fragmento verdadeiro, embalar bem, e fazer parecer que ele explica toda a realidade. Muitas vezes o problema não é o que foi dito. É tudo aquilo que ficou de fora.