Tem gente que quase nunca ocupa posição de poder. Mas, quando ocupa, por menor que seja, distorce.
É o sujeito que nem tem carro e trata mal o motorista do Uber porque está pagando. Ou alguém que assume o papel de organizar uma fila e passa a dar ordens, mesmo quando não há nada fora do lugar.
É também o pai que é pressionado o dia inteiro no trabalho e descarrega em casa, onde finalmente consegue mandar. Ou o professor que humilha alunos para compensar a própria humilhação fora dali, como no caso clássico de The Wall.
Hoje vi isso acontecer ao vivo.
Uma senhorinha controlava o acesso ao buffet em uma dessas salas VIP de eventos. As pessoas se aproximavam e ela dizia, com firmeza, que ainda não estava liberado. O tom era de autoridade. Desproporcional ao papel. Ninguém questionava. As pessoas recuavam, meio constrangidas.
Antes que alguém diga que ela estava apenas cumprindo seu papel, vale dizer: era evidente a satisfação. Ela estava visivelmente feliz. Poderosa.
Alguns minutos depois, sem qualquer aviso, ela simplesmente saía. E, de repente, estava liberado. As pessoas começavam a se servir.
Quando a mesa esvaziava, ela voltava. Retomava o posto. E tudo recomeçava. Às vezes, com a ajuda de outras guardas.
Não havia regra clara. Alguém ocupava esse espaço. E todos aceitavam.
Talvez nunca tenha sido sobre o buffet.
Era só um microcosmo de poder.
Quer conhecer uma pessoa de verdade? Dê a ela um pouco de poder. Nem precisa ser mais do que um microcosmo.