Mateus 13 termina de uma forma curiosa. Jesus volta para sua própria terra, ensina nas sinagogas e impressiona as pessoas. Elas reconhecem sabedoria em suas palavras e percebem algo diferente nele. Mas logo depois reduzem tudo à familiaridade: “não é este o filho do carpinteiro?”. E então vem uma das frases mais simbólicas do capítulo: Jesus realizou poucos milagres ali por causa da incredulidade deles.
Existe uma expressão popular que parece resumir bem a cena: santo de casa não faz milagre.
Talvez porque aquilo que se torna familiar demais também passe a receber menos atenção. As pessoas de Nazaré olhavam para Jesus e acreditavam já saber exatamente quem ele era. E isso é interessante porque Mateus 13 inteiro parece girar em torno dessa ideia de percepção.
A parábola do semeador talvez deixe isso ainda mais claro. O problema não está na semente. A mesma semente é lançada sobre todos. O que muda é o solo. E o solo vai sendo construído ao longo do tempo. Vai endurecendo, acumulando distrações, preocupações, certezas antigas e coisas demais ocupando espaço. Aos poucos, perde a capacidade de receber.
Talvez por isso Jesus diga que “ao que tem, mais lhe será dado; mas ao que não tem, até aquilo que tem lhe será tirado”. A frase parece dura, mas dentro do capítulo ela faz muito sentido. O solo fértil se torna mais fértil. Quem recebe a verdade com abertura passa a perceber ainda mais. Já quem deixa o coração endurecer vai perdendo até a capacidade de reconhecer aquilo que antes parecia minimamente claro.
E talvez seja exatamente isso que acontece em Nazaré. A proximidade deles com Cristo não produziu profundidade, mas fechamento. A sensação de já conhecer Jesus impediu que percebessem quem estava diante deles.
No fim, Mateus 13 parece menos um capítulo sobre parábolas e mais um capítulo sobre atenção. Sobre aquilo que o homem permite ocupar espaço dentro de si. Porque o coração nunca permanece neutro. Ele sempre está sendo preparado para receber alguma coisa ou endurecendo lentamente diante dela.