No princípio a terra era disforme e as trevas cobriam a face do abismo. E então Deus fez a luz e viu que era bom.
Simbolicamente, luz e trevas podem ser interpretadas como conhecimento, ou a falta dele. Assim, quando se diz que as trevas cobriam a face do abismo, podemos entender que a falta de conhecimento encobria o perigo.
Com a luz, entretanto, o abismo se torna visível. Ele continua lá. Torna-se talvez mais assustador. Mas o perigo deixa de ser oculto. Cair deixa de ser acidente e se transforma em escolha.
Na vida, acontece sempre o mesmo. Quantas vezes não caminhamos pelo mundo confiantes e confortáveis na ignorância? Em trevas. No escuro.
Aproximar-se de Deus implica adaptar-se ao jeito dele. E com Ele, há luz. A confiança ignorante precisa deixar de ter espaço e ser substituída pela consciência. E essa consciência pode ser tão incômoda que, quem sabe, até nos faça sentir saudade de como nos sentíamos quando não enxergávamos.
Mas Deus, em seu infinito amor, não quer que sejamos vítimas do que parece acaso. Para quem ficou muito tempo no escuro da noite, os raios do sol incomodam a visão. Mas é apenas questão de hábito.