Nesse capítulo, Gina Maria está em casa tentando organizar o dia como quem tenta organizar a própria alma com uma planilha aberta e zero vontade de viver. Ela olha para os grandes projetos que exigem foco, energia e alguma fé na humanidade. Suspira. Decide que vai começar. Não começa.
Não é preguiça. É cansaço existencial com certificado. Gina sente que anda carregando o mundo, Rick, Eleonor e ainda tentando pagar boletos. E como sempre, conclui que, se tudo está difícil, o problema só pode ser ela. Sempre ela. Gina tem esse talento raro de se responsabilizar até pelo aquecimento global.
O celular vibra. Mensagem da administradora no grupo da empresa. Objetiva, cruel, adulta. Faturamento precisa melhorar. Contas precisam ser pagas. Gina sente aquele frio conhecido na barriga. Eu sei, pensa. Eu sei tudo isso. Abre o teclado para responder com profissionalismo, maturidade e equilíbrio emocional.
Não dá tempo.
Rick Gatto surge no privado como quem entra numa reunião atrasado e ainda exige atenção. Ele não fala de números. Rick nunca fala de números. Rick fala de moral. Fala como quem descobriu a verdade universal às oito da manhã.
“Gina, o seu problema não é trabalho. São as más companhias.”
Pronto. Diagnóstico fechado. CRM emocional completo. Gina tenta argumentar. Diz que não é bem assim. Diz que está cansada. Diz que tem pressão. Rick ignora tudo isso com a tranquilidade de quem nunca duvidou de si mesmo nem por cinco minutos.
E então ele vai além. Porque Rick não conhece limites. Conhece convicções.
“Essa Rapha Lupe aí… isso é má influência.”
Rapha Lupe. A melhor amiga. A confidente. A pessoa que sabe tudo e ainda assim fica. Aquela que não vive de Instagram, mas vive de presença. Aquela que esteve com Gina quando ela resolveu sair e, por isso, virou ameaça oficial ao ego inflado do Gatto. Rick não odeia Rapha. Rick tem ciúmes dela. Ciúmes profundos, infantis e muito mal disfarçados. Ele quer ser o único espelho onde Gina se enxerga. Qualquer outro reflexo o enfurece.
Gina sente o golpe. E como boa mocinha treinada na culpa, reage do jeito errado.
“A pessoa má não é a Lupe. Sou eu, Gina.”
Era para ser um pedido de trégua. Vira convite para palestra motivacional.
Rick se anima. Se coloca como referência moral. Como exemplo de vida. Como se estivesse concedendo uma oportunidade rara de aprendizado. Ele explica, com a serenidade dos iluminados, que Gina finalmente está começando a entender. Que ele só quer ajudá-la. Que ela precisa ouvir quem é superior. Superior a quê, ninguém sabe. Mas Rick sabe. E isso basta.
A falta de noção é tamanha que chega a ser cômica. Se não fosse devastadora.
E o pior acontece. Gina acredita um pouco. Porque ela se acostumou a essa fantasia. A fantasia de que ela é o erro. De que ela precisa ser corrigida. De que Rick é duro, mas justo. E Rick, com prazer, reforça essa narrativa sempre que pode.
A tristeza não faz escândalo. Ela se senta no sofá e cruza os braços.
Gina então chama Eleonor Augusto. Porque Eleonor acalma. Ele organiza. Ele explica. Ele pega o caos e transforma em frases completas, com começo, meio e fim. Gina começa vaga. “Estou cansada.” Depois entra nos detalhes. Ele escuta. Atento. Interessado. Ele entende a reação de Gina. Entende até demais.
O diagnóstico dele é claro. Gina morre de amores por Rick. Não só de amor romântico. De hábito emocional. De costume tóxico. Gina se acostumou a existir como problema. E Rick é um profissional em manter isso funcionando.
Eleonor fala. Organiza. Mostra que Rick ultrapassa limites. Diz que isso não se faz. Mas enquanto fala, ele também vê tudo por um ângulo muito específico. Um ângulo que, curiosamente, o coloca como alternativa sensata, madura e acolhedora. Ele explica o mundo… do jeito que também lhe convém. E guarda alguma coisa. Sempre guarda. Algo ali não é dito. E isso não é acidente.
Rapha Lupe não participa da conversa. Mas é o centro do conflito.
Rapha é a presença que desestabiliza Rick. Não por agressividade. Por existir. Por lembrar Gina de quem ela é quando não está se desculpando. Rick não ataca Rapha por raiva. Ataca por ciúmes. Porque quer Gina olhando só para ele. Sempre para ele.
A conversa termina. Gina parece melhor. Conversar com Eleonor sempre acalma. E então, com uma clareza tímida, quase ensaiada, ela diz em voz alta:
“Eu preciso aprender a ouvir menos o Rick.”
Não é libertação. É treino.
Ela desliga. Abre o Instagram. Ajusta o sorriso funcional, aquele sorriso que não pergunta nada. Posta uma história curta, impecável.
“Tudo bem.”
O mundo acredita. Rick talvez sorria satisfeito. Eleonor observa. Rapha Lupe não vê agora, porque Rapha não vive ali.
E Gina, mais uma vez, transforma um caos inteiro em uma imagem bonita.
No próximo capítulo, veremos o que acontece quando a falta de noção começa a incomodar até quem a pratica, quando o espelho favorito deixa de refletir submissão, e quando Rapha Lupe finalmente entra em cena do jeito que só uma fiel escudeira sabe entrar. Porque, nesta novela, ninguém sustenta um ego inflado para sempre.