No capítulo de hoje, o dia nasce decidido a colaborar com o drama. Rick Gatto acorda antes do sol, não por insônia, mas por vocação. Há dores que não dormem. Há homens que não sabem sofrer em silêncio. Rick é os dois.
Ainda de pijama, já sente a inspiração. Pega o celular, respira fundo e começa.
“Você só dá valor ao que tem quando perde…”
Posta. Olha. Suspira. Concorda profundamente consigo mesmo.
Minutos depois, outra.
“Algumas pessoas aprendem tarde demais.”
Rick assente com a cabeça, como se alguém estivesse ali para ouvi-lo. Não percebe, nem por um segundo, que as frases que dispara servem como luva… para ele mesmo. Mas Gatto não reflete. Gatto proclama.
Mais uma.
“Nem todo abandono é coragem.”
Agora sim. Drama completo. Rick sente que cumpriu seu dever emocional com o mundo. Ou melhor, com Gina. Ou melhor ainda, com Gina e qualquer outra alma sensível que esteja olhando. Porque sofrer sozinho é triste. Sofrer observado é arte.
Em outra cidade, Gina Maria acorda como quem já perdeu o dia. O corpo pesado, o coração cansado e aquela sensação familiar de culpa antes mesmo de qualquer ação. Abre o celular. Erro clássico. Lê as indiretas. Todas. Uma por uma. Como quem assiste à própria condenação.
“Oh, Gina Maria, como pode?”, ela se pergunta, em voz baixa, mas com convicção. “Como pode ter seguido vivendo enquanto ele sofre tanto?” Fecha o aplicativo. Abre de novo. Culpa não aceita despedida.
Ela tenta se animar. Tenta lembrar que só saiu. Que não fez nada demais. Mas a mente responde rápido demais. “E quando foi que só sair não destruiu tudo?”
Enquanto isso, Eleonor Augusto faz o que sempre faz. Dá bom dia. No horário de sempre. Com a regularidade de quem nunca falha. Mas hoje a resposta não vem na hora. Gina viu as indiretas antes do carinho. E, naquele pequeno intervalo, já havia culpa suficiente para um capítulo inteiro.
Eleonor sente. Ele sempre sente. Liga.
Eles conversam. Ele aconselha. Fala com calma. Pede que Gina erga a cabeça. Fala de Rick sem rodeios, sem maquiagem emocional. “Você sofre porque ainda ama Rick”, diz, como quem joga água fria em incêndio antigo.
Gina sente o golpe. Porque dói ouvir em voz alta aquilo que ela tenta esconder até do travesseiro. Ela se acusa pelos erros do passado. Lista mentalmente cada falha, cada escolha, cada passo que não saiu perfeito.
Eleonor tenta explicar o mundo. Fala da confusão ensinada às mulheres. Misturaram tudo. Sexo, casamento, amor. Antes, dar só casando. Casar só amando. Agora, dar só amando. E amar virou sentença. Culpa, cobrança, peso.
Ele fala. Organiza. Racionaliza. Discorre como quem acredita que um bom argumento pode salvar uma alma.
Não salva.
Gina continua mal. Desmotivada. Apagada. Eleonor se preocupa. De verdade. Pensa em algo mais sério. Pensa em depressão. Pensa em proteger.
E então, num movimento inesperado, Gina muda de assunto. Como quem muda o rumo da própria dor.
Ela cobra. Cobra a distância. Cobra o tempo. Cobra decisões. “Quando você vai resolver as coisas na sua vida?”, pergunta. “Quando vamos viver juntos um amor de verdade?”
Silêncio.
Eleonor, que sempre tem palavras sobrando, perde todas. Não porque não entendeu. Mas porque entendeu demais. Porque explicar o mundo é fácil. Resolver a própria vida… nem tanto.
Gina percebe o silêncio. E se sente pior. Porque até o amor que consola parece não saber para onde ir.
Na praia, Rick posta mais uma frase. Mais uma verdade universal. Sem perceber que, se alguém realmente desse valor ao que tinha, talvez não precisasse anunciar isso todos os dias.
Neste capítulo, Rick ensina lições que ele mesmo não aprende. Eleonor entende tudo, menos o próprio futuro. E Gina, doce Gina Maria, é a única que sofre sem estratégia, ama sem truques e se culpa até pelo que ainda não aconteceu.
E o relógio mal avançou a manhã.
No próximo capítulo, veremos quantas indiretas ainda cabem em um dia, quanto silêncio uma conversa aguenta e até quando Gina vai continuar pedindo desculpas por estar viva. Porque, nesta novelinha, o drama não descansa. E o dia… está só começando.