Ezequiel 48 encerra o livro. Trata da organização das tribos, todas iguais, dispostas em torno de um centro.
O mapa é simétrico: faixas paralelas de terra, todas com a mesma medida, distribuídas de norte a sul. No meio delas está a porção sagrada, onde se encontram o templo e a cidade. Nada se organiza a partir das tribos; tudo se orienta a partir do centro.
Todas recebem o mesmo espaço de terra, sem referência a conquistas, perdas ou hierarquias do passado. A restauração não corrige a história anterior; estabelece uma ordem para que ela não se repita.
As tribos ficam distribuídas, uma de cada lado. Mais próximas do centro estão Benjamim e Judá, não por privilégio, mas por contenção. Onde o risco foi maior, o limite é mais próximo. O espaço educa e protege o futuro do retorno dos mesmos erros.
Nem o templo, nem essa organização do povo chegaram a acontecer conforme Ezequiel descreveu. Talvez porque a visão fosse mais espiritual do que física. Talvez porque ainda haja de se cumprir.
Assim, o livro termina não afirmando onde Deus está, pois Ele está em todos os lugares, mas como o povo é chamado a se organizar. O centro não contém Deus; orienta o homem. “O Senhor está ali.”
Homileticamente, o texto nos confronta com uma pergunta silenciosa: em torno de que centro estamos organizando a vida? Onde Deus é centro, surgem limites que preservam. Onde falta contenção, a liberdade repete antigos erros. Reconhecer Deus no centro não muda o mundo. Muda a forma como percebemos. E, por isso, caminhar deixa de ser tão confuso.