Deus não se ausenta. Em Ezequiel 44, a glória já voltou. O templo já está cheio de sentido antes que qualquer regra seja anunciada. O problema não é a falta da presença divina, mas a capacidade humana de permanecer próxima a ela.
O afastamento não acontece de uma vez. Cada ato é um passo. A distância vem com a caminhada. O mais perigoso não é a ruptura evidente, mas os pequenos desalinhamentos repetidos que parecem inofensivos. O culto continua. A rotina se mantém. A vida segue funcionando. Mas, pouco a pouco, o centro se afasta.
Por isso o texto organiza o espaço. Não para Deus, mas para o homem. Portões, funções, vestes e limites não protegem o sagrado. Eles educam o coração. O espaço ensina o tempo. Ensina quando se aproximar, quando conter, quando esperar. Quando o espaço deixa de educar, o tempo se desorganiza e a proximidade se perde sem alarde.
Os levitas continuam servindo, mas longe do altar. Não porque foram expulsos, mas porque chegaram ali caminhando. Os zadoquitas permanecem próximos não por mérito extraordinário, mas por persistência silenciosa. Permaneceram quando o afastamento dos outros parecia não ter consequência alguma.
Estar próximo de Deus não é um estado emocional constante. É uma posição cultivada. Deus garante presença. Quem se move somos nós. E, muitas vezes, só percebemos o quanto nos afastamos quando o centro já não está ao alcance.
Ezequiel 44 não acusa. Ele ensina. Ensina que a vida espiritual se decide nos detalhes repetidos. Que o espaço pode nos salvar do esquecimento. E que permanecer é, quase sempre, o gesto mais invisível e mais decisivo de todos.
Local: Los Angeles