Ezequiel escreve a um povo no exílio babilônico. Jerusalém foi destruída, o templo arrasado e a vida religiosa interrompida. Não se trata de crise abstrata, mas de colapso histórico concreto: perda de terra, de centro e de referência.
Na Bíblia, tempo e espaço se formam mutuamente. O modo como o tempo é vivido, em hábitos e escolhas repetidas, profana ou consagra os lugares. E os lugares, quando bem delimitados, reeducam o tempo e orientam decisões. É por isso que Deus dá tanta importância ao espaço: porque ele molda comportamento.
Foi assim que o colapso aconteceu. O tempo do povo se corrompeu, e isso deformou o uso do templo. O espaço perdeu sua função. Já não formava reverência nem organizava o desejo. Por isso, foi destruído. Com a perda do espaço, o tempo se desorganizou ainda mais, e o exílio consolidou essa ruptura.
Em Ezequiel 43, Deus retorna para interromper esse ciclo. A glória volta e, com ela, um novo padrão. As medidas importam porque formam escolhas. Delimitam acessos, distâncias e centros. Não é estética. É pedagogia.
Por isso o altar aparece por último. Primeiro o entorno é ordenado, depois o centro é redefinido, as conexões se estabilizam. Só então o altar, porque ele só funciona quando o espaço já é capaz de educar o tempo. O altar não produz a presença de Deus; ele sustenta uma vida ordenada diante dela.
Quando tempo e espaço voltam a se corrigir mutuamente, a presença pode ser percebida e permanecer.