Ezequiel 36 é escrito no exílio babilônico, após a queda de Jerusalém em 586 a.C., quando Judá perde terra, templo e autonomia. Não é apenas uma derrota militar, mas um colapso de sentido. No imaginário antigo, isso significava que o deus daquele povo havia sido vencido. O capítulo responde diretamente a essa leitura.
Deus fala às montanhas de Israel, símbolo da terra devastada, prometendo fertilidade, retorno e reconstrução. A ruína não é negada nem suavizada. Ela é tratada como consequência de um afastamento prolongado das leis que sustentam a vida. A restauração não é gesto arbitrário, mas reativação da ordem rompida.
O texto insiste que isso não acontece por mérito do povo. “Não é por causa de vocês” corrige uma leitura moralista da história. Deus age para restaurar a inteligibilidade do real, contrariando a zombaria das nações e a impressão de que a injustiça seria definitiva. Santificar o nome é devolver sentido à história.
O centro do capítulo está na transformação interior. O coração de pedra representa rigidez e incapacidade de aprender com as consequências. O coração de carne indica sensibilidade e abertura à correção. O novo espírito não elimina a responsabilidade, mas cria as condições para que o realinhamento seja possível.
O capítulo termina com lucidez. A memória do erro permanece, não como condenação, mas como aprendizado. Ezequiel 36 ensina que reconstruir não é voltar ao passado, mas reaprender a habitar a realidade. Deus aparece como o fundamento estável que garante que a vida, quando realinhada, volta a florescer.