Se você está lendo essa mensagem é porque sobrevivi à Márcia também. Brincadeira. Mais ou menos.
Hoje comecei a “modernizar o legado” da Márcia, minha assistente agêntica que roda no OpenClaw. Uso aspas porque legado normalmente é aquilo que está dando problema e foi construído por outra pessoa. No caso da Márcia, a história é diferente. Ela foi se construindo ao longo do tempo. Eu fui pedindo coisas. Ela foi ajustando o próprio ambiente. Escrevendo scripts. Organizando arquivos. Instalando utilitários. Como acontece com qualquer sistema que cresce sem gerenciamento adequado, a complexidade começou a cobrar seu preço. Às vezes funciona muito bem. Às vezes se perde. Chegou a hora de modernizar.
Na prática, a Márcia virou um agente monolítico. Muitas responsabilidades no mesmo workspace. Os mesmos dados sendo usados para tudo. Conveniente no começo. Complicado agora.
Primeiro ataquei o acoplamento. Algum tempo atrás desenvolvi um componente de memória de longo prazo. Combina um VAULT com um Knowledge Graph. Funciona muito bem. O problema é que estava completamente grudado na Márcia, dentro do workspace da agente principal. No monólito isso era conveniente. Mas, numa arquitetura com múltiplos agentes — que é o destino da Márcia — não faz sentido. Se quero subagentes realmente independentes, os dados não podem ficar presos a um único workspace. Então desgrudei a memória da Márcia.
O componente foi movido para um diretório separado e passou a ter versionamento independente. Agora funciona como memória de longo prazo do “crew” da Márcia. Continua sendo um componente centralizado, com acoplamento aferente potencialmente grande, mas agora desacoplado da agente principal.
Segundo movimento: comunicação. Conversar com a Márcia no WhatsApp ou no Telegram é conveniente, mas não escala para um time de agentes. Preciso de conversas separadas. Contextos separados. Minha solução foi usar o Slack. Criei um workspace onde eu, a Márcia e os agentes que vão surgir podemos conversar. Cada agente vai ser implementado como um app no Slack. Assim consigo manter canais separados e preservar melhor o contexto.
Com memória desacoplada e comunicação reorganizada, comecei o estrangulamento. Extraí a primeira capacidade da Márcia: escrever artigos longos. Era algo que ela fazia, mas frequentemente se perdia no meio do processo. Agora existe uma especialização dedicada a isso: marcia-article-writer. Ela faz apenas uma coisa e tem um workspace próprio. Movi para ela todas as definições que antes estavam na agente monolítica. O workspace está versionado em Git. Ainda estou estabilizando o funcionamento, mas já está quase lá.
Próximos passos: continuar afinando o agente principal e mover responsabilidades para agentes especialistas — o time da Márcia. A ideia é simples. A Márcia fica focada em conversar comigo. Para tarefas específicas e rotinas operacionais, entram os agentes especialistas.
Arquitetura de agentes continua sendo arquitetura de software. Sistemas crescem, acumulam responsabilidades e acabam virando monólitos. Quando isso acontece, o caminho é o mesmo de sempre: desacoplar, extrair capacidades e evoluir a arquitetura. A diferença é que, agora, o legado também pode ser agêntico.