Daniel 9. O profeta lê Jeremias. Um livro citado em outro. Ele entende que os setenta anos do exílio estão se cumprindo. Esse era o prazo anunciado para o cativeiro babilônico. Mas sua reação não é cálculo, é humildade. Ele interpreta a própria história com humildade. Jejua, confessa e assume a culpa coletiva. O exílio não foi acaso político, foi consequência moral.
A oração ocupa mais espaço que a visão. Daniel reconhece a justiça de Deus e apela à aliança. Jerusalém é “tua cidade”. O centro não é poder nacional, mas o nome de Deus. O retorno à terra não mudaria o coração. Compreender o tempo não produz superioridade espiritual; produz humildade. Antes da restauração externa, vem alinhamento interno.
Então surge Gabriel, o anjo. A resposta amplia o horizonte. Não são apenas setenta anos, mas setenta “setes”, expressão hebraica literal que indica unidades de sete. Não é o mesmo período. Se entendidos como setes de anos, seriam 490 anos. O foco deixa de ser apenas o fim do exílio e passa a ser o fim da transgressão e a chegada da justiça eterna.
Cristãos entendem que esse período culmina na vinda do Messias. O “Ungido” que seria “cortado” é lido como Cristo. Alguns cálculos partem de decretos persas para reconstruir Jerusalém e chegam ao século I. Há debates sobre cronologia, mas há convergência teológica: a cruz responde ao problema que o exílio apenas revelou.
Daniel 9 não é apenas sobre o fim do cativeiro. É sobre o fim do pecado. Os setenta anos resolvem a disciplina histórica. Os setenta setes apontam para redenção. O tempo tem medida. O mal tem limite. E a história caminha para um desfecho que não é político, mas redentor.