Alerta inicial: este texto não é uma crítica às pessoas citadas. Pelo contrário. Reafirmo minha admiração por todas elas. O que faço aqui é uma autocrítica como ouvinte e um alerta sobre algo sutil e perigoso: os pontos cegos que surgem quando escutamos alguém investido de autoridade. O risco da confiança cega.
Sempre admirei o Sérgio Sacani. Acho ele um cara acima da média, que pensa fora da caixa e tem um conhecimento geral respeitável. Dito isso, ele não está acima de qualquer suspeita. E ninguém está.
Vi alguns vídeos dele falando sobre IA. Em um deles, afirmou que o governo americano já tinha, desde os anos 70, acesso a um computador capaz de responder com a mesma eficiência do ChatGPT. Isso não é verdade. Tudo bem. Ele se enganou. O ponto não é o erro em si, mas a pergunta incômoda que ele provoca: o que mais eu aceitei como verdade, sem ter condições de julgar, apenas porque veio de alguém confiável?
Não foi um caso isolado. Já ouvi extrapolações semelhantes vindas de outros especialistas que respeito profundamente. O Heni Ozi, por exemplo, num podcast, falou sobre a capacidade das inteligências artificiais programarem de forma autônoma como algo já resolvido e amplamente utilizado por governos e instalações militares. Do jeito que foi colocado, isso também não corresponde à realidade.
Mais recentemente, percebi o mesmo padrão ao ouvir o Miguel Nicolelis. Um gênio. Um dos maiores cientistas que este país já produziu. Responsável por feitos históricos na neurociência e por aquele momento simbólico na abertura da Copa do Mundo, quando um brasileiro paraplégico deu o chute inicial usando um exoesqueleto. Alguém que merece muito mais reconhecimento do que recebe. Ainda assim, ao falar sobre o impacto econômico da IA, ele sai do seu domínio de excelência. Neurociência não é macroeconomia. Sua opinião é valiosa, mas não pode ser tomada automaticamente como diagnóstico técnico final.
De novo, não se trata de má-fé. Trata-se de algo mais sutil e mais comum: a confusão entre autoridade simbólica e autoridade técnica. Quando alguém é brilhante em um domínio, tendemos a transferir essa autoridade para outros campos. E, como ouvintes, muitas vezes suspendemos o julgamento crítico exatamente quando ele seria mais necessário.
A pergunta que fica não é sobre eles. É sobre nós. Quantas vezes ficamos em pontos cegos simplesmente porque quem está falando é uma autoridade?
Lição? Confiar em boas fontes não nos dispensa do dever de pensar. Em muitos casos, torna esse dever ainda maior.