Tem uma coisa que eu venho pensando.
A gente faz de tudo pra evitar dor. E tá certo. Ninguém quer sofrer. Mas tem um efeito meio escondido nisso: quanto mais você foge, menos você se conhece.
Tem coisa que só aparece quando dá errado. E, quando aparece, não costuma ser suave.
Dor não é bonita. Não tem nada de poético quando você tá no meio. Ela bagunça, pesa, cansa. Mas também não é inútil. Às vezes, ela tira o excesso. Corta o que é superficial e deixa só o que realmente importa.
Quando você fica doente de verdade, isso fica muito claro. O corpo te limita e, junto com ele, muita coisa que parecia indispensável simplesmente perde força. Urgências somem. Preocupações encolhem. Você percebe que boa parte do que te consumia não era tão importante assim.
Quando tá tudo confortável demais, a gente aceita qualquer coisa. Vai no automático. Não questiona muito. Às vezes, a saúde do corpo leva à doença da alma. A dor corta isso no meio.
Ela te obriga a parar, olhar de novo, escolher de novo. Te força a entender o que ainda faz sentido quando o resto desmorona.
Nem sempre isso termina bem. Tem gente que quebra. Mas quando você atravessa, sai diferente. Mais firme. Menos ingênuo. Mais consciente do que aguenta.
No fim, não é sobre gostar da dor. É sobre não desperdiçar quando ela aparece.
Porque ela aparece.
E quando vier, ou você só sofre… ou usa isso pra se reorganizar por dentro.