Sempre disse que a IA é um estagiário genial. Ela tem acesso a todo o conhecimento do mundo, trabalha 24 horas por dia sem reclamar e executa tarefas em segundos. Mas ela tem um defeito fatal: é um gênio com amnésia e sem nenhum senso de propósito. Se você pedir algo vago, ela vai alucinar com confiança. Se você não der contexto, ela vai entregar o óbvio, o medíocre ou o completamente errado.
É aqui que o trabalho intelectual muda. Deixamos de ser executores de tarefas para sermos arquitetos de intenção. E a regra de ouro para esse novo mundo é o que chamo de 10-80-10.
Tudo começa com você. Os primeiros 10% são a sua responsabilidade inegociável. É a definição clara do contexto e do objetivo. A IA não tem agência moral nem visão estratégica. Ela não sabe por que aquele relatório é importante, quem vai ler aquele e-mail ou qual o tom adequado para aquela negociação. Não adianta abrir o chat e pedir “escreve um texto sobre inovação”. Você precisa dizer quem é o público, qual é a dor, qual é a provocação e onde você quer chegar. Se você falha nesses 10% iniciais, a IA vai produzir lixo. E a culpa não é dela. É da sua incapacidade de articular o que você realmente quer.
Com a intenção definida, acontece a mágica. Os 80% do meio são a execução. É o trabalho braçal. Aquele rascunho inicial, a formatação da planilha, a pesquisa de referências, a estrutura da apresentação. O que antes levava uma tarde inteira de esforço cognitivo e digitação, agora leva minutos. A IA escala a sua capacidade de produção de forma brutal. Ela preenche o papel em branco, que sempre foi o maior bloqueio da criatividade. Mas ela só voa se a pista de decolagem estiver limpa.
E aí chegamos na parte onde a porca torce o rabo. Muita gente acha que IA é apertar um botão e ir tomar café. Erro crasso. Os 10% finais são a validação. É o seu julgamento. É você olhar para o que foi gerado e dizer: “Isso aqui está tecnicamente correto, mas não tem alma”. “Esse argumento é fraco”. “Essa frase pode ser mal interpretada”. A IA é o estagiário, lembra? Você deixaria um estagiário, por mais genial que fosse, enviar uma proposta para o seu maior cliente sem ninguém revisar?
A responsabilidade pelo resultado final continua sendo, e sempre será, sua. Se o texto ofender alguém, se o dado estiver errado, se a estratégia for um desastre, a culpa não é do algoritmo. É sua, que abdicou do dever de revisar.
O 10-80-10 é a nova matemática da produtividade. Os 10% de definição exigem clareza de pensamento. Os 80% de execução exigem domínio da ferramenta. E os 10% de revisão exigem sabedoria e experiência. Se você dominar essa equação, você multiplica seu impacto por dez. Se você ignorar as pontas e focar apenas no meio, você vira apenas um revisor de trabalho medíocre gerado por máquina. A escolha, como sempre, é sua.