Mateus 14 talvez seja um dos capítulos mais bonitos do evangelho porque parece mostrar a percepção dos discípulos mudando diante de Cristo. Eles já tinham visto milagres antes. Já tinham visto curas, libertações, a multiplicação dos pães e até tempestades sendo acalmadas. Mas, ao final da cena sobre as águas, acontece algo diferente: eles o adoram.
E talvez isso aconteça porque, naquele momento, deixam de olhar apenas para aquilo que Jesus fazia e começam a perceber quem estava diante deles.
No imaginário judaico, o mar carregava um simbolismo forte. Representava caos, ameaça e forças que pertenciam somente ao domínio de Deus. Então Cristo caminhando sobre as águas não parece apenas demonstração de poder. Parece revelação de autoridade divina.
E existe um detalhe muito forte na cena. Quando os discípulos se assustam, Jesus responde: “Sou eu; não temais”. No texto grego, a expressão usada é “ego eimi”, literalmente “EU SOU”. É impossível não lembrar da forma como Deus se revela no Antigo Testamento. Em meio ao caos do mar, ao medo e à incapacidade dos discípulos compreenderem plenamente o que estavam vendo, Cristo se apresenta usando justamente uma expressão profundamente associada à identidade divina.
Talvez por isso a reação dos discípulos mude tanto.
E Pedro torna a cena ainda mais humana.
Enquanto mantém os olhos em Cristo, ele participa do impossível. Caminha sobre aquilo que deveria afundá-lo. Mas, quando volta a atenção para o vento e para o mar, começa a afundar. Não porque o vento tenha se tornado mais forte, mas porque seu olhar muda de direção.
Isso parece acontecer várias vezes em Mateus. João Batista preso e tendo sua atenção capturada pelo peso do mundo. O solo sendo sufocado pelos espinhos das preocupações. Os fariseus incapazes de reconhecer aquilo que estava diante deles. O evangelho parece mostrar continuamente uma disputa pelo olhar do homem.
E talvez seja por isso que a fé, em Mateus, pareça menos uma questão de capacidade intelectual e mais uma questão de orientação do olhar. O problema não é simplesmente pensar errado. É deixar que o medo, o peso do mundo e as circunstâncias ocupem novamente o centro.
Mas existe algo muito bonito na cena de Pedro afundando: Cristo imediatamente estende a mão.
Pedro afunda, mas não é abandonado. Existe socorro. Existe graça. Existe resposta imediata de Deus diante da fragilidade humana. Ao mesmo tempo, Pedro precisa agarrar o braço de Cristo. A mão é estendida, mas ele precisa responder a ela.
Talvez seja exatamente isso que torna a cena tão humana. O homem constantemente perde o foco. Constantemente volta a olhar para o vento e para o mar. E ainda assim Cristo continua estendendo a mão.