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12/05/2026

Mateus 14 talvez seja um dos capítulos mais bonitos do evangelho porque parece mostrar a percepção dos discípulos mudando diante de Cristo. Eles já tinham visto milagres antes. Já tinham visto curas, libertações, a multiplicação dos pães e até tempestades sendo acalmadas. Mas, ao final da cena sobre as águas, acontece algo diferente: eles o adoram.

E talvez isso aconteça porque, naquele momento, deixam de olhar apenas para aquilo que Jesus fazia e começam a perceber quem estava diante deles.

No imaginário judaico, o mar carregava um simbolismo forte. Representava caos, ameaça e forças que pertenciam somente ao domínio de Deus. Então Cristo caminhando sobre as águas não parece apenas demonstração de poder. Parece revelação de autoridade divina.

E existe um detalhe muito forte na cena. Quando os discípulos se assustam, Jesus responde: “Sou eu; não temais”. No texto grego, a expressão usada é “ego eimi”, literalmente “EU SOU”. É impossível não lembrar da forma como Deus se revela no Antigo Testamento. Em meio ao caos do mar, ao medo e à incapacidade dos discípulos compreenderem plenamente o que estavam vendo, Cristo se apresenta usando justamente uma expressão profundamente associada à identidade divina.

Talvez por isso a reação dos discípulos mude tanto.

E Pedro torna a cena ainda mais humana.

Enquanto mantém os olhos em Cristo, ele participa do impossível. Caminha sobre aquilo que deveria afundá-lo. Mas, quando volta a atenção para o vento e para o mar, começa a afundar. Não porque o vento tenha se tornado mais forte, mas porque seu olhar muda de direção.

Isso parece acontecer várias vezes em Mateus. João Batista preso e tendo sua atenção capturada pelo peso do mundo. O solo sendo sufocado pelos espinhos das preocupações. Os fariseus incapazes de reconhecer aquilo que estava diante deles. O evangelho parece mostrar continuamente uma disputa pelo olhar do homem.

E talvez seja por isso que a fé, em Mateus, pareça menos uma questão de capacidade intelectual e mais uma questão de orientação do olhar. O problema não é simplesmente pensar errado. É deixar que o medo, o peso do mundo e as circunstâncias ocupem novamente o centro.

Mas existe algo muito bonito na cena de Pedro afundando: Cristo imediatamente estende a mão.

Pedro afunda, mas não é abandonado. Existe socorro. Existe graça. Existe resposta imediata de Deus diante da fragilidade humana. Ao mesmo tempo, Pedro precisa agarrar o braço de Cristo. A mão é estendida, mas ele precisa responder a ela.

Talvez seja exatamente isso que torna a cena tão humana. O homem constantemente perde o foco. Constantemente volta a olhar para o vento e para o mar. E ainda assim Cristo continua estendendo a mão.

11/05/2026

Eu terminei Alice no País das Maravilhas com a sensação de que o livro fala menos sobre fantasia e mais sobre o desconforto de existir em um mundo que muda o tempo inteiro.

Quando a história começa, Alice ainda acredita que existe uma lógica estável nas coisas. Existe um jeito certo, uma resposta correta, uma ordem previsível. Mas, conforme ela avança, percebe que quase nada permanece fixo. O tamanho muda. As regras mudam. As conversas mudam de direção. O sentido escapa.

E talvez a parte mais interessante seja que o problema não está apenas no mundo ao redor dela. Em determinado momento, ela percebe que também mudou. A frase “I am not myself” talvez seja o centro do livro inteiro. Alice percebe que não consegue mais explicar quem é porque já não se sente exatamente a mesma.

Isso é profundamente humano.

A gente cresce acreditando que maturidade significa encontrar estabilidade. Mas a vida parece muito mais próxima de Wonderland do que gostaríamos de admitir. Relações mudam. Convicções mudam. O contexto muda. Até a percepção que temos de nós mesmos muda.

O curioso é que o livro não trata isso como tragédia. Trata quase como condição inevitável da existência.

O Chapeleiro vive preso num tempo quebrado. A Rainha governa através do exagero e do medo. O julgamento acontece antes da sentença. O jogo possui regras que ninguém entende completamente. E, olhando de fora, tudo parece absurdo.

Mas olhando com honestidade… quanto do nosso próprio mundo também não funciona assim?

Talvez por isso o livro continue tão atual. Ele desmonta a ilusão de que os adultos vivem num mundo plenamente racional. Em Wonderland, autoridade frequentemente é performática, linguagem frequentemente falha e pessoas frequentemente falam sem realmente se ouvir.

E ainda assim a vida continua acontecendo.

O Gato de Cheshire talvez seja o personagem que melhor entendeu isso tudo. Quando ele diz que todos ali são loucos, não parece um insulto. Parece apenas uma constatação humilde sobre a condição humana.

No final, Alice atravessa o caos sem nunca receber um grande manual explicando como o mundo funciona. E talvez seja exatamente esse o ponto. Crescer não é finalmente compreender tudo. Crescer talvez seja aprender a caminhar mesmo quando nem todas as regras fazem sentido.

Porque, para quem não decide onde quer chegar, qualquer caminho serve.

E talvez Wonderland seja justamente isso: um mundo onde Alice descobre que encontrar direção importa mais do que encontrar controle.

11/05/2026

Mateus 13 termina de uma forma curiosa. Jesus volta para sua própria terra, ensina nas sinagogas e impressiona as pessoas. Elas reconhecem sabedoria em suas palavras e percebem algo diferente nele. Mas logo depois reduzem tudo à familiaridade: “não é este o filho do carpinteiro?”. E então vem uma das frases mais simbólicas do capítulo: Jesus realizou poucos milagres ali por causa da incredulidade deles.

Existe uma expressão popular que parece resumir bem a cena: santo de casa não faz milagre.

Talvez porque aquilo que se torna familiar demais também passe a receber menos atenção. As pessoas de Nazaré olhavam para Jesus e acreditavam já saber exatamente quem ele era. E isso é interessante porque Mateus 13 inteiro parece girar em torno dessa ideia de percepção.

A parábola do semeador talvez deixe isso ainda mais claro. O problema não está na semente. A mesma semente é lançada sobre todos. O que muda é o solo. E o solo vai sendo construído ao longo do tempo. Vai endurecendo, acumulando distrações, preocupações, certezas antigas e coisas demais ocupando espaço. Aos poucos, perde a capacidade de receber.

Talvez por isso Jesus diga que “ao que tem, mais lhe será dado; mas ao que não tem, até aquilo que tem lhe será tirado”. A frase parece dura, mas dentro do capítulo ela faz muito sentido. O solo fértil se torna mais fértil. Quem recebe a verdade com abertura passa a perceber ainda mais. Já quem deixa o coração endurecer vai perdendo até a capacidade de reconhecer aquilo que antes parecia minimamente claro.

E talvez seja exatamente isso que acontece em Nazaré. A proximidade deles com Cristo não produziu profundidade, mas fechamento. A sensação de já conhecer Jesus impediu que percebessem quem estava diante deles.

No fim, Mateus 13 parece menos um capítulo sobre parábolas e mais um capítulo sobre atenção. Sobre aquilo que o homem permite ocupar espaço dentro de si. Porque o coração nunca permanece neutro. Ele sempre está sendo preparado para receber alguma coisa ou endurecendo lentamente diante dela.

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