Comecei a ler Eu e Tu e logo nas primeiras páginas encontrei uma ideia difícil de ignorar. Buber diz que o homem vive diante do mundo de duas formas fundamentais: “Eu-Tu” e “Eu-Isso”.
O “Eu-Isso” é a relação utilitária com o mundo. É quando lidamos com algo como recurso, ferramenta, função ou conveniência. É o modo da técnica, da organização, da eficiência. Necessário, inclusive. Não existe ciência, engenharia ou gestão sem isso.
Mas o problema aparece quando toda relação passa a acontecer dessa forma.
Quando pessoas viram apenas função. Quando amizade vira conveniência. Quando conversas acontecem sem presença. Quando alguém deixa de ser um “Tu” e passa a ser apenas algo que atende expectativas, resolve problemas ou ocupa um espaço na nossa vida.
Talvez a ideia mais forte do texto seja esta: o próprio “eu” muda dependendo da relação.
O eu que encontra verdadeiramente alguém não é o mesmo eu que apenas usa, mede, classifica ou consome. O ser humano não se constrói isolado. Ele se constrói na relação.
Isso me fez pensar no quanto o mundo moderno empurra a gente para relações cada vez mais utilitárias. Tudo precisa gerar resultado. Tudo precisa servir para alguma coisa. Até o descanso, às vezes, parece produtividade disfarçada.
Talvez por isso exista tanta sensação de vazio em um tempo de hiperconexão. Nunca falamos tanto. Nunca nos mostramos tanto. E, ainda assim, talvez encontremos tão pouco.
Buber parece sugerir que a vida humana acontece de verdade no encontro. Não no controle, não na posse, não na análise. No encontro.
É difícil terminar esse trecho sem se perguntar quantas pessoas realmente tratamos como “Tu” e quantas acabaram se tornando apenas “Isso”.