Li A Redoma de Vidro, de Sylvia Plath. Sem dúvida, uma leitura perturbadora, que ganha contrastes ainda mais dramáticos quando se compreende seu caráter semi-autobiográfico.
Plath escreve de forma crua, às vezes cruel, ao descrever a luta da personagem principal contra a depressão, até que ela se aproxime do desejo de desaparecer.
Em muitos trechos, o livro se mostra datado. Foi escrito na década de 1960. Tratamentos de choque eram então considerados terapêuticos, quase desejáveis. O vocabulário, no entanto, é simples. A dificuldade do livro não está na linguagem, mas no que ele revela. A complexidade não é formal. É humana.
Sylvia apresenta um retrato da depressão que vai além da tristeza. Trata-se de um estado que distorce o mundo, isola o sujeito e o faz respirar sempre o mesmo ar viciado. A realidade externa continua, mas chega deformada, abafada, quase irreal. Daí a redoma.
A personagem lida com angústia e ansiedade. A abundância de possibilidades não gera liberdade automática. Quando cada escolha implica a morte das outras, a indecisão pode levar à inanição existencial. Nenhum fruto é colhido. Todos apodrecem.
Em determinado momento, no fundo do desespero, Plath percebe algo desconcertante. O corpo, descrito ao longo da obra como quase independente da consciência, insiste. O coração pulsa e afirma, silenciosamente: “eu sou, eu sou, eu sou”. Curiosamente, a mesma fórmula pela qual Deus se apresenta.
O livro não é fácil. Não porque exija erudição, mas porque exige honestidade. Ele força o leitor a encarar regiões profundas e pouco visitadas da alma humana. E há ainda um peso que permanece fora das páginas. Diferente da personagem, o desfecho da autora foi trágico. Poucos meses após o lançamento do livro, Sylvia Plath suicidou-se. A redoma literária se abriu. A redoma biográfica, não.