Acabei de terminar O Retrato de Dorian Gray e uma das coisas que mais me chamou a atenção foi o quanto ele parece um livro escrito para o nosso tempo. A história foi publicada em 1890, mas poderia ter sido concebida em plena era das redes sociais. A obsessão pela juventude, pela imagem, pela aprovação dos outros e pela construção de uma versão idealizada de si mesmo continua tão presente hoje quanto na Londres vitoriana.
Ao longo da narrativa, Dorian é convencido por Lord Henry de que a vida deve ser vivida como uma busca constante por prazer, beleza e experiências. A ideia parece sedutora. Afinal, quem não gostaria de escapar das consequências, preservar para sempre a própria imagem e viver apenas para satisfazer os próprios desejos? O problema é que toda escolha tem um custo. O que Dorian tenta esconder do mundo não desaparece. Apenas é transferido para outro lugar.
É justamente aí que está a genialidade do romance. O retrato não é apenas um elemento fantástico. Ele funciona como uma metáfora da consciência. Enquanto a aparência externa permanece impecável, a verdade interior vai se tornando cada vez mais difícil de encarar. Dorian consegue enganar os outros por muitos anos. O único que ele não consegue enganar é a si mesmo.
Também é impossível não enxergar algo do próprio Oscar Wilde na obra. Wilde era um defensor da beleza, da arte e da liberdade individual. Mas sua vida acabou marcada pelo choque entre os desejos pessoais e as convenções da sociedade de sua época. Existe uma ironia melancólica nisso tudo: o autor que tanto valorizava a estética escreveu uma das maiores advertências da literatura sobre os perigos de transformar a aparência em valor supremo.
No fim, saí da leitura com a impressão de que o livro não é uma condenação da beleza, do prazer ou da juventude. É uma advertência contra a ilusão de que essas coisas podem substituir caráter, propósito e verdade. Todos nós temos um retrato que ninguém vê. A questão não é se conseguimos esconder suas marcas dos outros. A questão é se conseguimos conviver com aquilo que ele revela quando estamos sozinhos diante dele.