Eu terminei Alice no País das Maravilhas com a sensação de que o livro fala menos sobre fantasia e mais sobre o desconforto de existir em um mundo que muda o tempo inteiro.
Quando a história começa, Alice ainda acredita que existe uma lógica estável nas coisas. Existe um jeito certo, uma resposta correta, uma ordem previsível. Mas, conforme ela avança, percebe que quase nada permanece fixo. O tamanho muda. As regras mudam. As conversas mudam de direção. O sentido escapa.
E talvez a parte mais interessante seja que o problema não está apenas no mundo ao redor dela. Em determinado momento, ela percebe que também mudou. A frase “I am not myself” talvez seja o centro do livro inteiro. Alice percebe que não consegue mais explicar quem é porque já não se sente exatamente a mesma.
Isso é profundamente humano.
A gente cresce acreditando que maturidade significa encontrar estabilidade. Mas a vida parece muito mais próxima de Wonderland do que gostaríamos de admitir. Relações mudam. Convicções mudam. O contexto muda. Até a percepção que temos de nós mesmos muda.
O curioso é que o livro não trata isso como tragédia. Trata quase como condição inevitável da existência.
O Chapeleiro vive preso num tempo quebrado. A Rainha governa através do exagero e do medo. O julgamento acontece antes da sentença. O jogo possui regras que ninguém entende completamente. E, olhando de fora, tudo parece absurdo.
Mas olhando com honestidade… quanto do nosso próprio mundo também não funciona assim?
Talvez por isso o livro continue tão atual. Ele desmonta a ilusão de que os adultos vivem num mundo plenamente racional. Em Wonderland, autoridade frequentemente é performática, linguagem frequentemente falha e pessoas frequentemente falam sem realmente se ouvir.
E ainda assim a vida continua acontecendo.
O Gato de Cheshire talvez seja o personagem que melhor entendeu isso tudo. Quando ele diz que todos ali são loucos, não parece um insulto. Parece apenas uma constatação humilde sobre a condição humana.
No final, Alice atravessa o caos sem nunca receber um grande manual explicando como o mundo funciona. E talvez seja exatamente esse o ponto. Crescer não é finalmente compreender tudo. Crescer talvez seja aprender a caminhar mesmo quando nem todas as regras fazem sentido.
Porque, para quem não decide onde quer chegar, qualquer caminho serve.
E talvez Wonderland seja justamente isso: um mundo onde Alice descobre que encontrar direção importa mais do que encontrar controle.