Mateus 20 começa com uma parábola profundamente desconfortável para a lógica humana. Trabalhadores são chamados em horários diferentes para trabalhar na vinha. Alguns trabalham o dia inteiro. Outros chegam quase no fim. Mas, ao final, todos recebem o mesmo salário.
E o curioso é que os trabalhadores da primeira hora não recebem menos do que o combinado. O problema começa quando percebem que os outros receberam o mesmo.
Porque o homem tem enorme dificuldade de lidar com uma Graça que não respeita proporcionalidade.
A parábola desmonta uma tendência profundamente humana de transformar relacionamento com Deus em acúmulo de crédito moral. Tempo de caminhada, esforço, disciplina, sofrimento e religiosidade frequentemente começam a ser vistos como formas de construir algum tipo de superioridade espiritual.
Mas o Reino não parece funcionar assim.
O salário da parábola não parece pagamento por desempenho. Parece Graça. E Graça deixa de ser Graça no momento em que pode ser exigida como direito adquirido.
Por isso a reação dos trabalhadores da primeira hora é tão reveladora. O olhar deles deixa de estar sobre aquilo que receberam e passa a se fixar naquilo que os outros receberam também. E então o dono da vinha pergunta: “Ou são maus os teus olhos porque eu sou bom?”
A frase é pesada porque expõe duas coisas ao mesmo tempo: inveja e incapacidade humana de aceitar uma Misericórdia que não pode ser controlada pela lógica do mérito.
Isso torna Mateus 20 extremamente atual. O homem continua tentando transformar tudo em comparação, desempenho e proporcionalidade. Inclusive a vida espiritual. Continua acreditando que tempo, esforço ou histórico produzem algum tipo de posição diante de Deus.
Mas a parábola aponta para outra direção. No Reino dos Céus, o homem não recebe porque acumulou créditos suficientes. Recebe porque Deus é bom.