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24/02/2026

Há momentos em que eu me transformo. Não é algo espetacular, mas é real. A voz endurece. A escuta diminui. A necessidade de responder na hora cresce.

No instante, tudo parece legítimo. Eu me sinto atacado, pressionado, ameaçado. Reajo. Argumento. Aperto.

Depois passa. Sempre passa.

E quando passa, eu me vejo quase como espectador da cena e penso: não precisava. A reação foi maior que o fato. E pior, não foi neutra. Feriu. Criou tensão. Deixou resíduos. Aquilo não era o meu melhor.

Li Inteligência Emocional, de Daniel Goleman, e foi ali que encontrei o termo que mudou minha forma de entender esses episódios: sequestro da amígdala.

A amígdala é uma estrutura primitiva do cérebro responsável por detectar ameaças. Quando ela interpreta perigo, assume o controle antes que o córtex racional consiga avaliar com calma. O corpo entra em modo de luta ou fuga. O mundo simplifica. A nuance desaparece. O instinto acelera a resposta.

Não é maldade. Não é caráter. É biologia.

Há situações que favorecem esse sequestro. Dormir mal. Comer mal. Cansaço acumulado. Estresse prolongado. O sistema já está sobrecarregado. Daí, basta uma fechada no trânsito, uma crítica mal colocada, uma mensagem ambígua e pronto. Onde não havia ameaça real, meu cérebro registra risco. E eu ajo como se estivesse sob ataque.

O problema é que o ataque passa a existir porque eu o crio. Elevo o tom. Ironizo. Endureço. No mínimo, ficam ressentimentos.

Na tradição católica, há um detalhe forte no rito de exorcismo: pergunta-se o nome do demônio. Dar nome faz parte do enfrentamento. O que não tem nome se esconde atrás de justificativas elegantes. O que tem nome pode ser reconhecido.

Quando li Goleman, senti que tinha descoberto o meu. Sequestro da amígdala.

Dar nome não elimina o fenômeno. Mas muda a posição. Depois dessa leitura, comecei a prestar atenção aos sinais físicos. O calor subindo. A respiração encurtando. A urgência de vencer a discussão.

Aprendi que nomear a emoção já reduz sua força. Dizer internamente “estou com raiva” ou “estou me sentindo ameaçado” devolve parte do controle ao córtex racional.

Passei a criar intervalos. Respirar antes de responder. Não enviar a mensagem imediatamente. Adiar conversas importantes quando estou exausto. Dormir melhor. Cuidar da alimentação. Parece banal, mas um cérebro descansado é menos paranoico.

Também me forço a perguntar: isso é realmente uma ameaça ou é apenas desconforto? Muitas vezes, é só desconforto.

Nem sempre consigo interromper. Ainda erro. Ainda reajo. Mas já não posso dizer que não sei o que está acontecendo. Não é mais um “temperamento forte”. É um mecanismo natural que pode ser regulado. E, justamente por poder ser regulado, passa a ser minha responsabilidade.

Talvez maturidade seja isso: reconhecer o próprio mecanismo de defesa, dar-lhe nome e decidir que ele não vai governar minhas relações.

Emoção é inevitável. Agressão não precisa ser.

24/02/2026

Alinhamento entre o que é, o que percebemos e o que afirmamos.

Aquilo que resiste ao tempo, à crítica e à realidade.

Na prática, pouco do que se afirma é verdadeiro. Muito é conveniência.

E é na confusão entre as duas que mora o perigo.

24/02/2026

Oseias 4 é uma virada no livro. A metáfora do casamento sai de cena e entra uma acusação direta. O diagnóstico é simples: falta verdade, falta misericórdia, falta conhecimento de Deus.

E “conhecimento” aqui não é saber teoria. É ter Deus como referência. É o ponto de apoio que permite enxergar a vida com clareza e sustentar a ética quando ela custa caro.

Quando essa referência é rejeitada, a forma de ver a realidade muda. E, junto, a forma de viver muda também. A verdade deixa de ser algo firme e vira ferramenta. A misericórdia deixa de ser compromisso e vira conveniência. O texto não fala só de pecados individuais. Ele mostra uma sociedade se desfazendo: mentira, violência, quebra de confiança, relações rompidas. Até a terra sofre.

O problema começa no jeito de pensar e termina no jeito de viver. Não é apenas castigo vindo de fora. É uma destruição que nasce de dentro, quando se perde o fundamento que organiza percepção e conduta.

Oseias 4 também aponta um caminho: voltar a buscar o conhecimento de Deus de forma real e prática, como relacionamento. Recuperar o alicerce que sustenta verdade e misericórdia. Se a queda começou na mente, a reconstrução começa ali também.

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