Estava lendo um texto do Seth Godin sobre a ideia da “menor audiência viável”.
Ele parte de exemplos simples, quase provocativos. Um restaurante excepcional com apenas 14 lugares, sustentado por uma base fiel. Um autor que não precisa de best-seller nem adaptação para o cinema porque escreve para um público pequeno e profundamente engajado. Um negócio local, sem escala aparente, que prospera porque é indispensável para um nicho muito específico.
O ponto não é romantizar o pequeno. É mostrar que qualidade, orgulho e sustentabilidade não dependem, necessariamente, de alcançar todo mundo.
A partir daí, Seth propõe um deslocamento importante. Em vez de começar pela pergunta “como crescer?”, ele sugere começar por outra: qual é a menor audiência para a qual isso pode ser viável?
Viável no sentido mais concreto da palavra. Pagar as contas, remunerar adequadamente quem está na operação e sustentar o trabalho no tempo. Não se trata de ambição reduzida, mas de clareza estratégica. Antes do mais, é preciso definir o suficiente.
Estamos acostumados a pensar que, se não estamos crescendo, estamos caindo. Essa lógica nasce do medo de faltar. Faltar dinheiro, faltar relevância, faltar futuro.
O problema é que, quando o crescimento vira critério absoluto, ele passa a justificar concessões silenciosas. Ajusta-se a proposta, amplia-se demais o público, dilui-se o centro. Cresce-se, mas já não se sabe exatamente para quem nem por quê.
A ideia da menor audiência viável inverte essa lógica. Viabilidade não começa no faturamento máximo, mas na existência de um grupo suficientemente pequeno e suficientemente comprometido para quem aquilo é insubstituível.
Um grupo que sustenta não apenas o negócio, mas o sentido. A segurança deixa de vir da escala e passa a vir do vínculo.
Isso não elimina o crescimento, mas o subordina. Primeiro, garante-se a permanência. Um chão sólido, capaz de sustentar identidade, remuneração e continuidade.
Só depois faz sentido ampliar, e ainda assim com um critério claro. A expansão precisa nascer de uma demanda periférica coerente, que se aproxime do centro, e não de um deslocamento do centro para capturar mais gente.
O teste é simples e exigente. A ampliação aprofunda o que já fazemos bem ou apenas torna a proposta mais genérica? Surge do reconhecimento de quem já valoriza ou da ansiedade de alcançar quem nunca se importou?
Se desloca o centro, é ruído. Se amplia sem trair, é crescimento legítimo.
No fundo, a menor audiência viável não é um teto. É um pacto. Um acordo prévio que orienta decisões difíceis.
Enquanto houver permanência, crescer é escolha. Sem isso, crescimento vira compulsão.