Marcos 5 começa onde a lógica humana termina. Um homem dominado por forças que ninguém conseguia controlar, uma mulher que havia esgotado todos os recursos disponíveis e uma menina já declarada morta. Em cada situação, existe um limite que as pessoas ao redor aceitaram como definitivo. O endemoniado era um caso perdido. A mulher era um sofrimento sem solução. A menina era uma história encerrada. Jesus entra em cena justamente onde todos já haviam desistido.
O episódio dos gerasenos me chama atenção porque a reação da população é surpreendente. Eles veem um homem restaurado, livre, em perfeito juízo. Mesmo assim, pedem que Jesus vá embora. O milagre foi grande demais. A presença de Cristo expôs algo que eles não queriam encarar. Nem toda rejeição nasce da ignorância. Às vezes nasce do desconforto de perceber que Deus é real e que sua presença exige mudança.
A mulher do fluxo de sangue segue o caminho oposto. Ela não tem prestígio, influência ou respostas. Tem apenas fé suficiente para se aproximar. Nem mesmo pede atenção. Toca discretamente as vestes de Jesus. O curioso é que Cristo para tudo para encontrá-la. Não porque precisasse descobrir quem a tocou, mas porque queria que ela soubesse que não havia recebido apenas uma cura. Havia sido restaurada em sua dignidade. Depois de doze anos sendo definida pela sua condição, ela volta a ser vista como pessoa.
Então chegamos à casa de Jairo. No meio do caminho, a situação piora. A menina morre. É como se a demora tivesse tornado impossível aquilo que já era difícil. Mas Jesus responde com uma frase que atravessa os séculos: “Não temas. Crê somente.” A fé cristã não é a crença de que tudo dará certo no nosso tempo. É a confiança de que Deus continua presente mesmo quando as circunstâncias dizem que já não há mais esperança.
No fim, Marcos reúne três vitórias em uma única narrativa. Jesus vence uma legião de demônios, vence uma doença incurável e vence a morte. Mas a grande diferença entre os personagens não está no tamanho do problema que carregam. Está na forma como respondem à presença de Cristo. Alguns pedem que ele vá embora. Outros se aproximam. Essa continua sendo a pergunta do capítulo. Quando Deus se torna real demais para ser ignorado, nós abrimos a porta ou pedimos que ele se retire?