09/01/2026

Na mitologia grega

Mitologia grega começa antes dos deuses olímpicos. Antes de Zeus, antes do Olimpo, existe uma geração mais antiga, mais bruta e mais estrutural: os Titãs. Eles não são “deuses menores”. São forças primordiais, princípios do mundo em estado quase cru. Menos personalidade, mais estrutura.

No início, Urano (Céu) e Gaia (Terra) estavam unidos, sem separação. Dessa união nasceram os Titãs, todos filhos do Céu e da Terra. Entre eles estavam Okeanos (as águas que circundam o mundo), Hipérion (a luz primordial), Têmis (a ordem e a justiça), Mnemósine (a memória), Reia (a fertilidade e a geração), entre outros. Cada titã representa um elemento essencial da realidade.

Mas Urano temia seus próprios filhos. Cada vez que Gaia dava à luz, ele empurrava os Titãs de volta para o ventre da Terra. Nada podia nascer plenamente. Tudo ficava comprimido, sufocado. O cosmos existia, mas não se desenvolvia. Era uma totalidade sem história.

É nesse contexto que nasce Cronos, o tempo. Cronos não surge como relógio, mas como força de ruptura. Gaia o arma contra o pai. Quando Cronos derrota Urano, ele separa Céu e Terra. Pela primeira vez surge espaço. Pela primeira vez algo pode crescer, mover-se, acontecer. O tempo nasce como condição da existência histórica.

Cronos passa a governar junto dos outros Titãs. É a chamada idade de ouro: ciclos estáveis, colheitas, ordem natural. Mas o tempo carrega uma contradição. Ele cria a sucessão, mas passa a temê-la. Ao ouvir que seria destronado por um filho, Cronos repete o gesto do pai. Devora os próprios descendentes. O libertador do nascimento torna-se seu carcereiro.

Um filho escapa. Zeus cresce, retorna e derrota Cronos. Não para destruir o tempo, mas para instaurar uma nova forma de ordem. O mito deixa claro: o tempo não acaba. Ele muda de regime.

A história inteira é uma lição encadeada. O excesso de controle sufoca a vida. A separação cria possibilidade. O tempo é necessário para que o mundo exista, mas quando tenta se eternizar, ele cai. Os gregos nos dizem, com elegância cruel, que toda força que impede o nascimento acaba sendo vencida pelo que tentou conter. Porque viver é, inevitavelmente, abrir espaço.

Fazendo agora um parelo bíblico.

No princípio, criou Deus os céus e a terra. Assim começa Gênesis. Céus e Terra aparecem juntos, como uma totalidade ainda sem forma. Tudo existe, mas nada acontece. A criação avança quando essa totalidade passa a ser organizada em dias. A narrativa é ritmada, sequencial, quase administrativa. Antes de formas complexas, institui-se uma agenda. O mundo passa a existir dentro do tempo.

A mitologia grega parte da mesma intuição. Urano e Gaia estão unidos, colados, comprimindo tudo. Desses dois nascem os Titãs, forças primordiais do real. Não são deuses psicológicos, mas princípios estruturais. Luz, águas, lei, memória, tempo. O cosmos existe, mas está sufocado. Há potência, mas não há história.

No primeiro dia da criação, surge a luz. Não como objeto, mas como condição de inteligibilidade. Ver, distinguir, orientar-se. Esse princípio corresponde a Hipérion, a luz primordial. Sem luz, nada pode ser percebido, separado ou nomeado. Antes de qualquer forma, é preciso clareza.

No segundo dia, as águas são separadas. O mundo ganha limites, contornos, fronteiras. Aqui o paralelo é com Okeanós, o rio primordial que circunda tudo. Não o mar navegável, mas a borda do mundo. Antes de caminhos, limites. Antes de expansão, contenção.

No terceiro dia, surge a terra firme e a possibilidade de fertilidade. O mundo passa a sustentar vida. Esse é o domínio direto de Gaia, não apenas como solo, mas como fundamento, base estável onde algo pode crescer e permanecer.

No quarto dia, aparecem os luminares. Sol, lua e estrelas não são criados para iluminar, mas para marcar tempos, dias e estações. Eles funcionam como referências recorrentes, marcos estáveis que permitem lembrar, comparar, esperar. Aqui o princípio não é apenas tempo, mas memória. O paralelo mais preciso é Mnemósine. Sem memória, não há calendário. Sem calendário, não há promessa, nem continuidade, nem história.

É nesse cenário que o tempo se torna narrável. Na mitologia, isso se expressa em Cronos, que separa Céu e Terra e cria espaço para que o mundo aconteça. Em Gênesis, o tempo não é personificado, mas instituído. A criação acontece porque há sequência. Sem cronologia, tudo seria eterno e imóvel.

Depois que a estrutura está posta, surge a vida em movimento e, por fim, o homem, Adão. Ele não cria o mundo, mas recebe a tarefa de habitá-lo, nomeá-lo, cuidá-lo. Na mitologia grega, o paralelo é Zeus. Não o criador do cosmos, mas o agente que governa dentro da ordem já estabelecida. A estrutura cede lugar à responsabilidade.

O quadro completo se alinha com precisão. Céus e Terra como totalidade inicial. Luz, limites, fundamento, memória e tempo como condições da existência. E, por fim, a agência humana, chamada a responder pelo mundo que recebeu. Gênesis descreve esses princípios em atos criadores. A mitologia grega os descreve em personagens. Linguagens diferentes, mesma intuição profunda: a vida só começa quando há separação, ritmo, lembrança e alguém capaz de assumir o peso das escolhas. Criar não é juntar tudo. Criar é dar lugar, dar tempo e confiar o mundo a quem terá de cuidar dele.

E o Saturno? Onde entra?

Saturno é Saturno, a tradução romana de Cronos. Não é um deus diferente. É o mesmo princípio, lido por outra cultura. Quando Roma herda o mito grego, ela suaviza a tragédia e enfatiza a função. Cronos, entre os gregos, é o tempo que rompe, devora e cai. Saturno, entre os romanos, é o tempo que organiza, amadurece e colhe. Menos drama cósmico, mais civilização.

Na visão romana, Saturno está ligado à agricultura, aos ciclos, à colheita. Não por acaso, o tempo aqui não é destruição pura, mas condição de maturação. Nada floresce fora do tempo. Nada é colhido antes da hora. O tempo passa a ser visto como aquilo que torna possível a abundância. O mesmo princípio que separa e impõe espera é o que permite fruto.

Isso aparece de forma simbólica nas Saturnálias, festas em que a ordem social era temporariamente suspensa. Senhores serviam escravos. Hierarquias eram invertidas. Era um lembrete ritual de que o tempo relativiza o poder, desmonta rigidezes e impede que qualquer ordem se absolutize. Até a autoridade precisa, de tempos em tempos, lembrar que é provisória.

Saturno, portanto, não nega Cronos. Ele o domestica. Onde os gregos viam o tempo como força trágica que derruba pais e devora filhos, os romanos enxergaram o tempo como aquilo que educa, disciplina e prepara. O mesmo tempo que destrói o que tenta se eternizar é o tempo que faz crescer o que aceita esperar.

Fechando o arco inteiro, o papel do tempo fica claro. Ele não é vilão nem herói. É condição. Ele cria espaço, institui ritmo, sustenta memória e cobra maturidade. Sem tempo, tudo é eterno e estéril. Com tempo, há separação, história e responsabilidade. Saturno, Cronos, dias da criação, colheitas, memória e governo dizem a mesma coisa em línguas diferentes: viver é aprender a respeitar o tempo. Não dominá-lo. Não negá-lo. Mas caminhar com ele, sabendo que tudo o que se recusa a passar acaba, inevitavelmente, caindo.

09/01/2026

NVIDIA anunciou tecnologia open source para carros autônomos. Isso, por si só, já deveria fazer a gente parar e prestar atenção.

Carros autônomos mais perto de serem realidade? Será? Toda vez que essa pergunta volta, ela traz junto promessas antigas e um certo cansaço coletivo. Já ouvimos antes que “agora vai”. E quase sempre esse agora escorre para algum ponto indefinido no futuro.

O anúncio da NVIDIA na CES muda um pouco o enquadramento dessa conversa. O Projeto Alpamayo não fala apenas de dirigir melhor. Fala de raciocinar melhor. A proposta é que o carro não só aja, mas consiga explicar por que agiu. Não é apenas frear. É frear porque identificou um risco ambíguo, um comportamento fora do padrão, uma situação que foge do caso médio. Parece detalhe, mas é uma mudança de patamar.

Durante anos, a autonomia avançou por caminhos bem conhecidos. Sistemas altamente controlados funcionam muito bem em ambientes específicos. Abordagens mais generalistas escalam rápido, mas tropeçam justamente na cauda longa dos cenários difíceis. Aqueles eventos raros, estranhos, que quase não aparecem nos dados, mas que definem a confiança no sistema. O Alpamayo tenta atacar exatamente aí, usando modelos que pensam em cadeia, quase como um humano faria.

Outro ponto que merece atenção é a escolha pelo open source. E isso não é detalhe técnico, é decisão cultural. Em um setor historicamente fechado, onde autonomia é tratada como segredo industrial, a NVIDIA aposta na abertura. Modelo aberto, dados abertos, simulador aberto. Open source conecta melhor porque cria um ponto comum entre indústria, pesquisa e engenharia de campo. A competição deixa de ser quem esconde mais e passa a ser quem constrói melhor em cima de uma base compartilhada.

Isso também muda a relação com reguladores e com a sociedade. Um sistema que explica suas decisões pode ser auditado, questionado, aprimorado. Quando algo dá errado, não vira um mistério insondável. Autonomia sem transparência vira fé. Autonomia com abertura vira engenharia.

A parceria com a Mercedes é o primeiro teste concreto dessa ideia no mundo real. O novo CLA chega com um sistema de direção nível 2++ que, na prática, já se comporta como algo bem mais avançado, mas sem pular etapas. Ainda exige supervisão humana. Não por limitação apenas, mas por prudência. Antes de prometer níveis mais altos, a aposta parece ser consistência, previsibilidade e confiança acumulada.

Talvez a pergunta certa não seja se os carros autônomos estão mais perto. Talvez seja se estamos mais maduros para construí-los do jeito certo. Menos marketing, menos bravata. Mais explicação, mais abertura, mais razão. Se esse for o caminho, o futuro pode não chegar com um salto espetacular. Mas pode chegar, enfim, de pé.

09/01/2026

Estou lendo Hamlet, clássico de Shakespeare. Nele, um dos personagens, Polônio, dá conselhos a seu filho Laertes. Poderiam ser para mim ou para você. Veja:

  1. “Dá a cada homem teu ouvido, mas a poucos tua voz.”
    Ouvir é captar o mundo antes de reagir a ele. Falar menos não é timidez, é estratégia. Quem escuta bem entende melhor onde pisa.
  2. “Não tornes teus pensamentos ações precipitadas.”
    Nem tudo o que passa pela cabeça precisa virar gesto. A distância entre ideia e ação é o espaço da responsabilidade.
  3. “Sê familiar, mas não vulgar.”
    Proximidade constrói pontes. Excesso derruba limites. Respeito nasce da medida.
  4. “Amigos provados, prende-os à tua alma com ganchos de aço.”
    Laços verdadeiros são raros. Quando existem, merecem cuidado e lealdade ativa.
  5. “Evita brigas; mas, se entrares nelas, faze-o de modo que o adversário te tema.”
    Conflito não é virtude. Mas, quando inevitável, hesitação custa mais caro que firmeza.
  6. “Dá ouvidos a todos, mas reserva teu juízo.”
    Escutar opiniões não implica adotá-las. Julgar é um ato solitário.
  7. “Traja-te conforme teus recursos, sem ostentação.”
    A aparência comunica caráter antes das palavras. Excesso distrai, sobriedade sustenta.
  8. “Não emprestes nem tomes emprestado.”
    Dívidas criam amarras invisíveis. Autonomia é um bem silencioso.
  9. “Sobretudo: sê fiel a ti mesmo.”
    Não como slogan, mas como coerência diária. Quando isso falha, todo o resto vira encenação.

É curioso como conselhos dados num palco do século XVII continuam funcionando fora dele. Talvez porque, apesar do tempo, o jogo humano siga o mesmo.

Curso Reputação e Marketing Pessoal

Masterclasses

01

Introdução do curso

02

Por que sua “reputação” é importante?

03

Como você se apresenta?

04

Como você apresenta suas ideias?

05

Como usar Storytelling?

06

Você tem uma dor? Eu tenho o alívio!

07

Escrita efetiva para não escritores

08

Como aumentar (e manter) sua audiência?

09

Gatilhos! Gatilhos!

10

Triple Threat: Domine Produto, Embalagem e Distribuição

11

Estratégias Vencedoras: Desbloqueie o Poder da Teoria dos Jogos

12

Análise SWOT de sua marca pessoal

13

Soterrado por informações? Aprenda a fazer gestão do conhecimento pessoal, do jeito certo

14

Vendo além do óbvio com a Pentad de Burkle

15

Construindo Reputação através de Métricas: A Arte de Alinhar Expectativas com Lag e Lead Measures

16

A Tríade da Liderança: Navegando entre Líder, Liderado e Contexto no Mundo do Marketing Pessoal

17

Análise PESTEL para Marketing Pessoal

18

Canvas de Proposta de Valor para Marca Pessoal

19

Método OKR para Objetivos Pessoais

20

Análise de Competências de Gallup

21

Feedback 360 Graus para Autoavaliação

22

Modelo de Cinco Forças de Porter

23

Estratégia Blue Ocean para Diferenciação Pessoal

24

Análise de Tendências para Previsão de Mercado

25

Design Thinking para Inovação Pessoal

26

Metodologia Agile para Desenvolvimento Pessoal

27

Análise de Redes Sociais para Ampliar Conexões

Lições complementares

28

Apresentando-se do Jeito Certo

29

O mercado remunera raridade? Como evidenciar a sua?

30

O que pode estar te impedindo de ter sucesso

Recomendações de Leituras

31

Aprendendo a qualificar sua reputação do jeito certo

32

Quem é você?

33

Qual a sua “IDEIA”?

34

StoryTelling

35

Você tem uma dor? Eu tenho o alívio!

36

Escrita efetiva para não escritores

37

Gatilhos!

38

Triple Threat: Domine Produto, Embalagem e Distribuição

39

Estratégias Vencedoras: Desbloqueie o Poder da Teoria do Jogos

40

Análise SWOT de sua marca pessoal

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