Concluí a leitura de “Em agosto nos vemos”, um romance curtinho, publicado em 2024. Obra póstuma de Gabriel García Márquez. Ainda mais curtinho que “A hora da estrela”, da Clarice Lispector, o livro que li antes.
Enquanto Clarice comprime o mundo em tensão, García Márquez o reduz ao essencial, quase em silêncio. Este foi o primeiro livro dele que li, então não cheguei com comparações prontas. Cheguei apenas como leitor, curioso para ver o que um autor tão citado deixaria num romance final e breve.
O contexto já muda o modo de ler. É um livro póstumo, publicado décadas depois dos grandes marcos da carreira do autor, e isso aparece no tom. O romance não tenta provar nada. Ele observa. Ele confia em pequenos rituais e em deslocamentos discretos. A protagonista, Ana Magdalena Bach, visita todos os anos, em agosto, o túmulo da mãe numa ilha. O que começa como dever e lembrança vai ganhando outra camada. A ilha vira intervalo. E o intervalo vira espelho.
Há um detalhe que me marcou: a repetição do mês não serve só para situar a história no calendário. Serve para mostrar como a vida muda de forma quase invisível. Um ano de cada vez. Uma escolha de cada vez. O livro insiste em coisas pequenas, e é justamente aí que ele incomoda. Porque o que está em jogo não é aventura. É identidade.
Em muitos momentos, o texto sugere mais do que afirma. Há frases curtas, imagens concretas, e um tipo de silêncio que pede participação do leitor. Em vez de explicar a personagem, o romance a expõe em gestos. Uma travessia. Um quarto. Um encontro. Um retorno. É como se a narrativa dissesse, com delicadeza: existe uma parte da vida que só aparece quando ninguém está olhando.
O que mais me chamou atenção foi a ausência de sermão. O desejo não é tratado como espetáculo, nem como moralidade. Ele surge como descoberta tardia. E isso muda tudo. Porque o livro não fala sobre escândalo, fala sobre a diferença entre cumprir papéis e habitar a própria vida.
Terminei a leitura com uma impressão simples. Algumas histórias não precisam ser grandes para serem profundas. Elas chegam baixo, quase em silêncio, e deixam uma pergunta que não se resolve rápido: O que em mim eu tenho adiado sem perceber?