Ezequiel 35 apresenta um oráculo contra Edom, descendência de Esaú, irmão de Jacó, identificado com o Monte Seir. O texto acusa uma hostilidade contínua e, sobretudo, a alegria oportunista diante da queda de Jerusalém. O desfecho anunciado é a desolação da própria terra edomita. A lógica é simples e rigorosa: quem passa a viver da ruína alheia termina habitando a própria ruína.
Esse oráculo não está isolado. Ele dialoga com Obadias, Salmos 137 e Lamentações 4, todos denunciando Edom pelo mesmo motivo: celebrar a queda do irmão. Não se trata apenas de conflito entre nações, mas de uma ruptura fraterna agravada pela proximidade e pela consciência do que estava acontecendo.
Historicamente, Edom aproveitou a invasão babilônica de 586 a.C. para expandir território e lucrar com o colapso de Judá. O pecado não se resume à agressão direta. É a leitura moral do desastre como oportunidade. A tragédia do outro passa a ser tratada como dado estratégico.
Por isso, Edom ultrapassa sua condição histórica e se torna símbolo. Ele representa a postura de quem observa o colapso do outro à distância segura e o converte em vantagem. O texto deixa claro que não existe neutralidade moral em contextos de injustiça. Assistir, consentir e lucrar são formas distintas de participação.
O juízo, então, não aparece como reação emocional de Deus, mas como consequência estrutural. A violência sustentada ao longo do tempo cria um ambiente inviável à vida. Celebrar a queda do irmão corrói, primeiro, quem celebra. O mundo, mais cedo ou mais tarde, exige coerência ética, mesmo quando não há intervenção visível.
Nesse sentido, a terra não é neutra. Ela responde ao modo como é desejada e habitada. Edom quis possuir a terra ignorando sua vocação relacional e, ao fazê-lo, perdeu o próprio chão. O juízo acontece quando a realidade deixa de sustentar quem rompe com aquilo que a sustenta.
O texto nos confronta com uma pergunta incômoda: que tipo de mundo estamos ajudando a construir quando transformamos o sofrimento alheio em vantagem? A ruína do outro pode parecer distante, mas ela educa nossos afetos, ajusta nossos critérios e redefine o lugar onde escolhemos habitar. Quem aprende a viver da queda do irmão dificilmente perceberá quando começar a morar na própria.