Ezequiel 34 nasce em um contexto de colapso. Jerusalém caiu, o templo foi destruído e o povo vive no exílio. A liderança falhou, e a pergunta que permanece é simples e decisiva: quem governa agora?
É nesse cenário que o capítulo denuncia os pastores de Israel. Reis e dirigentes passaram a se alimentar do rebanho. O que era responsabilidade tornou-se privilégio. O resultado não foi apenas má gestão, mas dispersão e fragilidade coletiva. Quando a liderança se corrompe, a vida perde coesão.
A resposta divina não é uma reorganização política. Deus declara que Ele mesmo assumirá o cuidado do rebanho. Busca os perdidos, cura os feridos e reúne os dispersos. Com isso, o texto redefine autoridade em seu nível mais básico. Governar não é dominar, mas sustentar a vida.
Essa redefinição alcança também o interior do povo. A injustiça não está apenas no topo. Dentro do próprio rebanho, ovelhas fortes oprimem as fracas. A restauração, portanto, não se completa apenas com novos líderes, mas com relações corrigidas. Onde não há justiça entre iguais, não há rebanho íntegro.
Surge então a promessa divina de um só pastor, chamado por Deus de “meu servo Davi”. Não como retorno ao passado, mas como recuperação de um modelo em que autoridade e cuidado coincidem. Essa expectativa encontra sua resposta em Jesus Cristo, o bom pastor que não explora, mas se entrega, e que governa dando a própria vida.
Homileticamente, o texto nos alcança com força. Deus assume o controle quando o comando está corrompido, inclusive o da própria vida. Mas isso exige um gesto difícil: admitir que somos ovelhas. Enquanto insistimos em nos conduzir sozinhos, permanecemos dispersos. A restauração começa quando abrimos mão do controle e nos deixamos conduzir por quem cuida melhor de nós do que nós mesmos.