Há um momento em Hamlet em que a filosofia sai do palácio e vai parar no chão.
É a cena do coveiro. O único personagem que enfrenta o príncipe sem reverência. Brinca. Provoca. Ri. Enquanto cava.
Hamlet pega um crânio nas mãos. Talvez tenha sido um grande advogado. Onde foram parar seus sofismas, contratos, manobras? Agora um sujeito qualquer pode quebrar-lhe a cabeça com a pá e ele não pode processar ninguém por lesão corporal.
Outro crânio poderia ser de um grande proprietário. Escrituras, hipotecas, posses. Tudo resolvido no mesmo termo final. Uma caveira. A morte como retomada universal de todas as propriedades.
O que exatamente sobra quando tudo o que acumulamos cabe numa mão?
Aqui, Shakespeare encosta Hamlet numa tradição antiga. A vanitas. Vaidade das vaidades. Tudo passa. Tudo murcha. Tudo termina.
A morte não discute currículo. Não respeita status. Não se impressiona com títulos. Ela iguala o príncipe e o coveiro, o belo e o feio, o poderoso e o anônimo. Todos voltam ao mesmo chão.
A vaidade moderna tenta esquecer isso. Cosmética, culto ao corpo, obsessão com aparência. Como se hidratar bem suspendesse o destino. No máximo, produz um cadáver bem cuidado. A verdade permanece intacta.
A cena não é mórbida. É pedagógica. Ela pergunta, sem aliviar: de que serve viver apenas para acumular símbolos que não atravessam a morte?
Hamlet não oferece consolo fácil. Ele oferece lucidez. A consciência da finitude desmonta muita coisa que chamamos de sucesso. E isso dói. Porque expõe o quanto investimos energia em projetos que não sobrevivem nem a uma pá de terra.
Talvez a única pergunta que reste não seja como vencer a morte, mas como viver sabendo que ela virá.
O resto é vaidade.