O estudo de Ezequiel 11 me fez reencontrar a Teologia da Negação. Não como um sistema organizado, mas como uma postura espiritual recorrente. Ela não rejeita Deus. Rejeita a realidade. Usa a linguagem da fé para amortecer o impacto do que já está evidente, transformando confiança em anestesia e esperança em adiamento.
Essa teologia funciona reinterpretando sinais incômodos como exagero, crise como fase, advertência como pessimismo. Tudo é sempre provisório, tudo é sempre contornável. A fé deixa de ser instrumento de discernimento e passa a ser argumento para não mudar. Não se trata de ignorância, mas de uma escolha consciente por não encarar o que está diante dos olhos.
O efeito mais perverso da Teologia da Negação é a paralisia moral. Se “vai dar certo”, não há urgência. Se “Deus vai resolver”, não há responsabilidade. A esperança, que deveria provocar transformação, vira mecanismo de fuga. Em vez de gerar arrependimento, produz conforto psicológico.
Ela costuma florescer onde ainda há estabilidade. Quem ainda está protegido tende a confundir sobrevivência provisória com aprovação definitiva. O que ainda não caiu é tratado como sinal de que nunca cairá. O problema não é acreditar em livramento, é usar essa crença para adiar decisões que já deveriam ter sido tomadas.
Talvez por isso a Teologia da Negação seja uma das formas mais sofisticadas de incredulidade. Ela não afirma que Deus está ausente. Afirma que Ele não exigirá nada. E, quando a realidade finalmente impõe seu peso, não sobra fé para atravessar o colapso, apenas surpresa por ele ter acontecido.