Vivemos numa sociedade erótica, literalmente uma sociedade do desejo. E o desejo é sempre dirigido àquilo que nos falta. O desejo não sustenta uma vida. Apenas a empurra.
Quando o ausente se torna presente, o desejo se dissolve. Eis o dilema: organizamos a vida em torno do que ainda não temos e chamamos isso de motivação. O problema não é desejar demais. É depender disso para viver.
O marketing, as redes sociais e os gurus respiram Eros. Não por acaso. Eles exploram o sentimento de falta, de incompletude, e o amarram à ideia de que algo precisa ser feito imediatamente, quase sempre comprado. O que começa como estratégia comercial termina como comportamento social banalizado. Vivemos a sociedade do que falta, do sucesso do outro, da comparação constante. Você nunca chega lá, porque o “lá” se move.
Ficamos ansiosos pela encomenda que não chegou, pelo próximo modelo, pela próxima conquista. Quando chega, quando se concretiza, algo curioso acontece: esquecemos rapidamente por que aquilo parecia tão essencial. O desejo cumpriu sua função e se retirou de cena. O vazio não veio depois da perda. Veio depois da conquista.
O mesmo vale para as relações. Muitas vezes, quando nos relacionamos com “quem desejávamos”, o interesse esfria. Não porque a pessoa mudou, mas porque o motor era a falta. Quando o desejo acaba, muitos descobrem que não sabem amar.
Assim, a sociedade erótica se torna a sociedade da insatisfação crônica. Conquistamos coisas incríveis, mas não celebramos. Normalizamos o espetacular. Vivemos hoje o mundo dos sonhos de versões nossas de anos atrás e, ainda assim, sentimos que algo falta. A insatisfação moderna não nasce da escassez, mas da incapacidade de celebrar. Essa lógica esgota.
Esse esgotamento tem um preço. A insatisfação contínua gera frustração silenciosa. Não é exagero dizer que vivemos numa sociedade exausta de desejar, treinada a desprezar o que acabou de conquistar.
O problema se agrava quando tudo vira meio. Quando a vida só faz sentido em função do próximo objetivo, o presente pesa. Tudo que existe apenas para levar a outra coisa se transforma em fardo.
A vida deixa de ser fardo quando deixa de ser organizada apenas pelo Eros. Quando paramos de buscar sentido exclusivamente no ausente e aprendemos a reconhecer valor no que já está aqui. Quando estudamos porque gostamos de estudar, e não apenas para passar no concurso, a constância se impõe. Quando o objetivo é só o resultado, a primeira alternativa fácil seduz e vence. O mesmo vale para o corpo: treinar pelo treino sustenta; treinar apenas pelo shape nos faz parar na próxima promessa milagrosa, na próxima canetinha salvadora.
Talvez maturidade seja isso: não viver à espera. Fazer as pazes com o presente. Quem vive esperando o próximo horizonte nunca habita lugar nenhum.