Tudo que hoje parece fácil na minha vida é fruto de uma jornada difícil. Tudo.
Eis o tal “Paradoxo da Facilidade”.
Acho que escrevo bem.
Mas escrevo assim porque li muito e escrevi mais ainda.
Foram anos insistindo em frases mal escritas até entender o peso certo de cada palavra.
O que hoje soa natural carrega bastidores longos, solitários e pacientes.
Esse texto, mesmo, não ficou assim de primeira. E nem acho que esteja tão bom.
Falar em público também parece fácil.
Mas não é.
Foram aulas de teatro.
Exercícios de respiração.
Enfrentamento da timidez.
Disciplina virou técnica.
Técnica, um dia, ficou natural.
Hoje, parece leve.
Mas só parece.
No trabalho, é a mesma coisa.
Vez ou outra ouço que tenho “desenvoltura” em reuniões.
Que respondo rápido.
Que me expresso bem.
O elogio me honra, mas de certa forma também me ofende.
Tudo teve seu preço.
Estudo.
Preparo.
Frameworks mentais que desenvolvi para lembrar do que sei.
Horas de leitura.
Horas de prática.
Horas que não aparecem.
Fácil?
Falo sobre filosofia e teologia, e muitos acham que entendo.
Mas o que sei, sei à força.
Li os mesmos trechos dezenas de vezes.
Ainda leio.
Ainda volto.
Ainda apanho.
O que hoje parece domínio, quase sempre é insistência.
Sou questionador.
E ter fé é mais difícil quando se questiona.
Mas entendo que vale a pena.
Olho para frente e vejo outras coisas que um dia quero tornar naturais: tocar violão, escrever poesia, liderar melhor.
Mas, por enquanto, ainda são tarefas trabalhosas.
Ainda sou aprendiz.
E talvez não dê tempo de fazer tudo isso parecer fácil aos olhos dos outros.
O que entendi é simples.
O que soa leve só soa assim porque alguém carregou muito peso.
O simples é caro.
O elegante é disciplinado.
O fácil exige esforço.
Toda frase fluida.
Toda resposta rápida.
Todo gesto espontâneo.
Tudo isso nasceu longe dos olhos.
Nos bastidores da disciplina.
É lá que mora a essência do que um dia parece fácil.