No capítulo de hoje, o destino acorda decidido a fazer teatro com a vida de Gina Maria. Antes mesmo do café, a culpa já está sentada à mesa. “Oh, Gina Maria, como pode?”, pergunta o universo, indignado. Ainda assim, ela sai de casa. Um erro. Sempre um erro, quando se é a mocinha.
Na praia, Rick Gatto faz o que sabe fazer melhor. Se exibe. Sofre. E se exibe sofrendo. Depois da corrida, ele ajeita o cabelo, estufa o peito e encara a câmera como quem diz sem dizer. Um verdadeiro Gatto em exibição. Um felino ferido. Mas disponível.
Posta a primeira foto.
“Correr cansa. Mas ser deixado cansa mais.”
Curtidas aparecem. Comentários surgem. Olhares invisíveis do outro lado da tela. Rick sorri de canto. Um sorriso de quem mia dor, mas ronrona vaidade.
Posta outra.
“Metade da esquadra comigo. A outra metade resolveu sair do jogo.”
A filha observa. Rick suspira. “Seu pai ainda joga bonito”, comenta, mais para o Instagram do que para ela. Porque Rick Gatto não corre atrás. Ele desfila. E quem quiser que acompanhe.
Em outra cidade, Gina vê tudo. O coração aperta. “Ele está sofrendo”, pensa. E nem passa pela cabeça dela que Gatto também gosta de plateia. Fecha o aplicativo. Abre de novo. Culpa não respeita lógica.
“Oh, Gina Maria, como pode?”, ela se condena. “Enquanto ele sofre, eu… saí.” A palavra pesa como sentença. “Eu não devia ter respirado fora do alcance dele.”
Mais uma notificação. Outra foto. Agora Rick sentado na areia, olhar melancólico, pose ensaiada. Legenda curta. Mortal. “Cansado. Mas ainda um bom partido.” Não escrito. Mas entendido.
Gina sente o golpe. “Eu destruí tudo”, pensa. “E ainda deixei espaço para ele se exibir.” A dúvida vem cruel. “E se eu ainda o amo?” Ela se odeia por isso. “Ou será que eu só me sinto culpada por existir?”
É então que Eleonor Augusto aparece. Calmo. Exato. Pontual como sempre. Olha Gina com atenção quase excessiva.
“Você percebeu que ele corre mais para a câmera do que para frente?”, diz, com leve ironia.
Gina chora. Claro que chora. “Ele está cansado. E eu sou a causa.”
Eleonor sorri, manso demais. “Rick não é cansado. É carente. Gatto gosta de carinho. De preferência, de várias mãos.”
Ela ri, mesmo chorando. Um riso tímido. “Você sempre me faz ver diferente.”
Ele inclina a cabeça. “Eu gosto de te proteger do óbvio.” Não diz do quê mais gosta.
Quando a chamada termina, Eleonor fica sozinho. O sorriso some. O olhar endurece. “Eu sei o que eu sou capaz de fazer”, murmura. “Eu sei até onde posso ir.” Respira fundo. “Mas não hoje. Hoje eu vou ser bom. Hoje eu vou ser tudo o que eles não são.”
Na praia, Rick posta mais uma foto. Agora em close. O sol certo. O suor certo. O Gatto certo. Observa as reações e pensa, satisfeito: “Ela viu.” Pausa. “E outras também.” Ronrona por dentro.
Neste capítulo, Gina é a única que ama sem malícia. A única que sofre sem cálculo. A única que se culpa enquanto os outros se exibem, se consolam ou se controlam demais.
Rick é Gatto. Mia dor. Exibe garra. Procura colo.
Eleonor cuida. Demais.
E Gina, doce Gina Maria, acredita que culpa é prova de amor.
No próximo capítulo, saberemos quem realmente corre atrás de quem, quantos olhares o Gatto ainda vai caçar e até quando a mocinha vai achar que amar é pedir desculpas por estar viva. Porque, nesta novelinha, ninguém posta sem intenção.