No início, o mundo era sufocante. Urano, o Céu, cobria tudo. Gaia, a Terra, gerava, mas nada avançava. Os filhos eram devolvidos ao fundo, como ideias esmagadas por uma ordem total. Não havia espaço. Não havia história. Apenas domínio.
Gaia conspira. Forja a foice. Quem atende é Cronos. Não por bondade, mas porque o tempo sempre quer avançar. Quando Urano desce, Cronos corta. O céu é separado da terra. O cosmos respira. O corte cria distância, limite, intervalo. O mundo começa quando a totalidade é rompida.
Os restos caem no mar. A violência não se encerra ali. Sangue e semente encontram as ondas. A espuma se adensa. E do trauma nasce algo inesperado. Não uma arma. Não um tirano. Surge Afrodite. Inteira. Adulta. Caminhando sobre as águas. Onde pisa, a terra floresce. Os deuses, que aprenderam a mandar e a temer o tempo, descobrem outra força: a atração.
A simbologia é clara. Primeiro, o poder absoluto sufoca. Depois, o tempo corta. Só então o desejo conecta. Afrodite não governa pela força. Ela reorganiza o mundo por aproximação. Depois do golpe, vem o vínculo. Depois da separação, a possibilidade de união.
Quando esse mito atravessa mares e chega a Roma, Afrodite ganha outro nome: Vênus. O desejo vira genealogia. A beleza vira fundamento político. O que era força cósmica passa a sustentar cidades e impérios.
O mito fecha o arco. O mundo nasce do corte, mas se sustenta pelo desejo. Afrodite lembra de onde essa força vem. Vênus mostra o que fazemos quando aprendemos a usá-la.