A normalização do adiamento cria um efeito curioso. Ela não elimina decisões, apenas as empurra para um estoque invisível chamado “depois”. Cada coisa adiada vira um futuro pendente. E futuros pendentes se acumulam. Não em silêncio, mas em forma de ruído interno.
Ansiedade é isso. Futuros demais disputando atenção ao mesmo tempo. Possibilidades abertas que nunca se fecham. Conversas que não aconteceram. Decisões que ficaram para amanhã. Caminhos que não foram escolhidos. O ansioso vive cercado por futuros que exigem resposta, todos ao mesmo tempo.
A depressão opera no eixo oposto. É excesso de passado. Eventos já encerrados que continuam ocupando o presente. Culpa, arrependimento, perdas não elaboradas. Enquanto o ansioso foge para frente, o deprimido fica preso atrás. Ambos sofrem do mesmo mal em direções diferentes: tempo mal processado.
Por isso todo ansioso procrastina. Não por preguiça, mas por saturação. Quando há futuros demais, agir em um significa matar outros. E matar possibilidades dói. Adiar parece menos violento. Até o dia em que o acúmulo cobra juros.
Ezequiel 12 toca exatamente nesse ponto. O povo não negava o juízo, apenas o adiava. Transformou o depois em abrigo emocional. Deus responde mostrando que o adiamento também é uma decisão. Quando a realidade grita e a consciência cochila, Deus sobe o volume. Porque futuros demais não salvam ninguém. O que salva é escolher quais futuros vão deixar de existir e qual deles vai ter a chance de se tornar presente.