Há uma frase em Hamlet que atravessa séculos: “Há algo de podre no reino da Dinamarca”.
Ela não é dita por Hamlet, mas por um sentinela, ainda no Ato I, logo após a aparição do fantasma do antigo rei. Antes de provas. Antes de escândalos. Antes de qualquer explicação. O mal é percebido antes de ser compreendido.
Não é um comentário moral. É um diagnóstico estrutural.
Algo já está errado no ar. A ordem foi violada. O poder não repousa mais sobre algo íntegro. A podridão antecede os eventos. Ela vem antes dos culpados.
Hamlet não desconfia apenas do tio. Nem apenas da mãe. Nem apenas de Polônio. Ele percebe que o ambiente inteiro está contaminado. Relações, cargos, afetos e lealdades já nascem comprometidos. Quando tudo cheira mal, onde apoiar o pé?
O erro recorrente é tratar a podridão como episódio. Um governante. Um partido. Um escândalo isolado. A peça aponta algo mais desconfortável. O problema não está concentrado. Está distribuído. Infiltrado. Normalizado.
A corrupção começa no leito do poder, mas não termina nele. Ela escorre pelas pequenas concessões. Pelo jeitinho aceito. Pela regra burlada sem culpa. Pela vantagem mínima que parece inofensiva. Até o dia em que nos indignamos com o topo, esquecendo que o fundo sustenta.
A leitura hamletiana é amarga porque retira o conforto da terceirização moral. Não são apenas “eles”. Somos parte do reino. Respiramos o mesmo ar. Reproduzimos, em escala menor, a lógica que condenamos em escala maior.
Seria mais confortável acreditar que basta trocar o rei para salvar o reino. Mas a peça avisa cedo. Quando a podridão é estrutural, trocar personagens não resolve a encenação.
A consciência disso não traz alívio. Traz peso. E responsabilidade.
O resto é teatro.